SACANAGEM
Inspirado na obra de Diego Fernandes: “Fala sério! É proibido ser diferente?”.
A peça se passa nos tempos atuais, e trata de problemas do cotidiano, o que faz com que o público se identifique com as personagens. Uma comédia bem séria. Que além de proporcionar diversão, traz a tona questões como: Casamento, castidade, virgindade, gravidez na adolescência, aborto, dst, e prostituição. Fazendo com que o público pense e reflita sobre seus reais conceitos.
Tudo começa quando Lucas é obrigado por sua mãe dona Estela, a casar com sua namorada, Kelly, que está grávida. Ele não aceita a idéia e continua á traindo com Bia a filha da empregada. Enquanto isso, Aninha sua prima, moça pura e inocente, que vem do interior para ajudar nos preparativos do casamento, se envolve com Miguel, um canalha, que só quer se aproveitar dela. Concomitante a tudo isso, seus irmãos: Rebeca, que se diz ser uma mulher moderna, tenta a todo custo levar o namorado Carlinhos, que quer casar virgem, pra cama. Zeca, um tímido rapaz que muda completamente, para conquistar á amada. E também Manu, uma patricinha que adora relacionamentos passageiros.
Sacanagem é então uma tentativa de resgatar valores tão necessários nos dias de hoje, como o amor, um sentimento que está sendo, pouco a pouco extinto de nossa sociedade.
PERSONAGENS
LUCAS- 18 anos- Um aventureiro que acaba sendo obrigado a casar com a namorada. Porém, ainda assim, ele continua sendo infiel a mesma.
KELLY- 17 anos- Uma garota apaixonada e muito ciumenta, que para segurar o namorado acaba, engravidando.
BIA- 14 anos- Uma jovem garota, que na tentativa de arrumar um namorado, acaba se envolvendo com Lucas.
ANINHA- 16 anos- Moça pura e inocente, que sonha encontrar seu príncipe encantado.
CARLINHOS- 17 anos- Sensível, romântico e apaixonado, sonha em casar virgem.
REBECA- 16 anos- Moderninha e fogosa, usa de toda sua criatividade para levar o namorado para cama.
MIGUEL- 19 anos- “Um galinha” que só pensa em diversão, bebida e mulher.
ZECA- 16 anos- Um tímido rapaz, que para conquistar à amada, muda completamente.
MANU- 17 anos- Não acredita no amor, metida a patricinha, e adora “ficar”.
DONA ESTELA- 39 anos- Viúva, mãe de Rebeca, Lucas, Zeca e Manu. Muito religiosa e conservadora da moral e dos bons costumes.
CENÁRIO - Uma sala com móveis modernos e arrojados. Com um corredor que dar para os quartos e outro para cozinha.
SACANAGEM
Original de Denilson David
PERSONAGENS
LUCAS
CARLINHOS
MIGUEL
ZECA
BIA
ANINHA
REBECA
MANU
KELLY
DONA ESTELA
NARRADOR – (VINDO DO MEIO DA PLATÉIA) Senhoras e senhores, o que é o amor? Lenda, superstição, sonho, realidade, ou pura ilusão? Este sentimento tão difícil de se explicar e tão mágico de se viver está sendo extinto pouco a pouco. Gravidezes na adolescência, dst’s, abortos, prostituições... conseqüências de uma sociedade que busca o prazer pelo prazer, essa geração tem se tornado cada vez mais cheia de sexo, de pornografia, e vazia de amor! E como já dizia um poeta “já estou cheio de me sentir vazio,” cheio de tanta sacanagem! (SAI E ABREM-SE AS CORTINAS).
DONA ESTELA- (ENTRA PARA ATENDER O TELEFONE, QUE ESTÁ TOCANDO) Alô! Oi, irmã Bastiana! Como vai? Ai, eu vou bem obrigada! Graças ao divino sangue de cristo, o Demônio saiu do rastro do meu filho! (LUCAS ENTRA SEM QUE ELA VEJA E ESCUTA A CONVERSA) Pois é, ele decidiu corrigir a besteira que fez, engravidou a namorada, sabe como são esses jovens de hoje. Não mais ele vai casar daqui à um mês. Você tá convidada, se o senhor permitir. Tchau, a paz irmã!
LUCAS- Como se não bastasse me obrigar a casar, a senhora ainda fica fazendo propaganda, é mãe?
DONA ESTELA- Claro filho, eu quero que todos fiquem sabendo. Ai, será o dia mais feliz da minha vida.
LUCAS- E o mais triste da minha!
DONA ESTELA- Filho não fala assim, se a Kelly escuta...
KELLY- (ENTRANDO) Eu já escutei dona Estela, (PEGANDO NA BARRIGA) tá vendo filhinho, seu pai não me ama mais, ele não quer mais nada comigo, eu sou uma desgraçada, eu não quero mais viver! Por favor, me mata dona Estela!
DONA ESTELA- Deus me livre, minha filha. Pelo sangue de cristo!
KELLY- Ai, eu tô ficando tonta, eu estou vendo uma luz... (DESMAIA).
LUCAS- Kelly! Mãe, faz alguma coisa!
DONA ESTELA- (GRITA) Bia, Bia! Traz água rápido! Kelly acorda Kelly!
BIA- (ENTRA CORRENDO COM UM COPO DE ÁGUA) Que agonia é essa, dona Estela.
DONA ESTELA- Tudo bem, mim da essa água minha filha. (JOGA ÁGUA EM KELLY, ELA TORNA) tudo bem querida?
KELLY- Lucas, olha pra mim, eu sou feia? Tenho mau hálito? Por que você não me ama mais?
DONA ESTELA- Claro que ama Kelly. O Lucas estava só brincando. Não era Lucas?
LUCAS – É era...
DONA ESTELA – Ai, o casamento de vocês será deslumbrante. Bia eu preciso de sua ajuda venha comigo. (SAI PARA COZINHA).
KELLY- Pedro Lucas Jorge Afonso e Silva, precisamos levar um papo sério.
LUCAS- O que é que tá pegando?
KELLY- Nosso casamento é daqui um mês, daqui a três meses o moleque nasce. E como é que nós vamos fazer pra dar de comer a ele?
LUCAS- E eu é que sei, dar de mamar até ele enjoar.
KELLY- Nem pensar meu bem. Eu dou de mamar agora, aí depois tá tudo caído, igiado, nem morta! Você pode cuidar em arrumar um emprego.
LUCAS- Nem pensar, Deus me livre! Já sei, registra o moleque no programa do leite, do governo.
KELLY- Boa, tem leite três vezes por semana.
LUCAS- Vamos por o moleque pra estudar bem cedo, aí ele fica recebendo o bolsa escola.
KELLY- É, ele já tá com a vida feita, mas e a gente?
LUCAS- Vamos nos cadastrar no Fome Zero!
KELLY- E nós, vamos morar aonde?
LUCAS- Vamos entrar pro movimento sem terra, e descolar uma casa maneira.
KELLY- (FALANDO COM A BARRIGA) Tá vendo filhinho, seu pai pensa em tudo! (PARA LUCAS) Vem, me dar um beijinho. (ELE Á BEIJA NA TESTA) Mais o que é isso Lucas, beijo na testa?
LUCAS- Não tem clima Kelly.
KELLY- Não tem clima? Eu parei de estudar, fui expulsa de casa, deixei de sair com minhas amigas. Tudo isso pra quê? Antes de noivarmos você era todo apaixonado agora...
LUCAS- Não começa Kelly!
KELLY- Já sei, você tá saindo com outra. Não é?
LUCAS- Chega!
KELLY- Quem é a sem futuro? Se você tá pensando em me fazer de corna, pode tirar o cavalinho da chuva. Você vai casar comigo, e tem que ser fiel.
LUCAS- Ai, que saco!
KELLY- (FALANDO COM A BARRIGA) Tá vendo filhinho, que vida triste vai ser a sua, seu pai é um homem sem coração, desalmado. E sua mãe, vai morrer antes de você nascer. Nunca esqueça de sua mãe, ela foi uma mulher forte.
LUCAS- Kelly pára com isso! O moleque vai nascer com depressão.
KELLY – Minha hora chegou a morte me chama!
LUCAS- Pra onde você vai sua louca?
KELLY- (BRAVA) Vou me suicidar na privada! (FALA PARA A BARRIGA) Ouviu filhinho? E o culpado será seu pai.
LUCAS - Espera! (TOCA A CAMPANHIA) Já vai, já vai!
CARLINHOS- (ENTRANDO) A Rebeca está?
LUCAS - Está no quarto, vou chama-la. (SAI PARA OS QUARTOS).
CARLINHOS- (SENTA-SE NO SOFÁ, ELE TRAZ UM LIVRO NA MÃO). Vou ler um pouco, (LENDO) Romeu, Romeu! Ah! Por que és tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou então, se não queres jura ao menos que amor me tens, porque uma capuleto deixarei de ser logo. (ENQUANTO ELE LER, VINDO DOS QUARTOS ENTRA REBECA VESTIDA DE BEIBIDOU).
CARLINHOS- (SUSPIRA) Ai Romeu e Julieta, eu e a Rebeca, a lua e as estrelas, ai o amor é lindo!
REBECA- (SURPREENDENDO-O) Linda sou eu Carlinhos! Ai amor eu estou tão afim. (ABRAÇA-O).
CARLINHOS- (NERVOSO) O que é isso Rebeca! Sua mãe, seus irmãos, podem entrar, tá maluca?
REBECA- Maluca por você amor! (NOVA INVESTIDA).
CARLINHOS- (OFENDIDO) para com isso Rebeca! Isso não é nada romântico.
REBECA- (CHATEADA) Ah não Carlinhos, assim não dá. A gente já namora um tempão...
CARLINHOS- (CORTANDO) um mês
REBECA- (IGNORANDO-O) e até agora nada.
CARLINHOS- Rebeca, temos que viver cada etapa das regrinhas do amor. Nos dois primeiros meses só selinho, no terceiro beijo de língua, no quarto abraço apertado, no quinto uns amasso, no sexto noivado, e no oitavo...
REBECA- (ANIMA-SE) O que amor?
CARLINHOS- (SUSPIRA) O casamento.
REBECA- (DECEPCIONADA) E o resto?
CARLINHOS- Eu já falei só depois do casamento. Eu quero casar virgem!
REBECA- (CHATEADA) Carlinhos, você tá de sacanagem comigo!
CARLINHOS- Vamos imaginar: você toda de branco...
REBECA- (ANIMA-SE) Beibidou branco amor, safadinho heim!
CARLINHOS- Eu estava falando do vestido de noiva, super hiper mega branco, uma grinalda de cinco quilômetros, quinze damas de honrra...
REBECA- (CORTANDO-O) Não sei pra que tanta honra!
CARLINHOS- (CONTINUANDO) E nós dois, puros virgens imaculados!
REBECA- Que horror! Vem cá, você é de que geração?
CARLINHOS- Da geração do amor e do respeito.
REBECA- Agora imagina você Carlinhos! Eu vestida de Eva, você de Adão. Nós dois no jardim do Edem...
CARLINHOS- (IMAGINANDO) Você de Eva e eu de Adão... Mas espera aí, esses dois não usavam roupas.
REBECA- Aí é que tá a emoção, aquele vento nos tocando. Eu e você, você e eu... naquela loucura, ai! Vamos seguir o exemplo deles amor e comer-mos do fruto proibido.
CARLINHOS- Você esqueceu, que depois de comerem esse fruto, eles foram expulsos do paraíso? (APROXIMA-SE) Rebeca, não pode ser assim, tem que ser uma noite mágica!
REBECA- (IRRITADA) Ai amor, eu sou uma mulher moderna, você tem que me entender. Pô!
CARLINHOS- Se você me ama, vai saber me esperar! Depois a gente se fala. (SAI PARA A RUA).
REBECA- Droga! ( DÁ A VOLTA POR TRÁS DO SOFÁ E SE ABAIXA)
CARLINHOS- (LENDO) Ai em teus olhos, há maior perigo do que em vinte punhais de teus parentes. Olha-me com doçura, e é quanto basta para deixar-me a prova do ódio deles. (SUSPIRA) Ai o amor é lindo!
REBECA- ( LEVANTA-SE CANTAROLANDO) Lálá, lálá, lálá, oi Carlinhos! (AVANÇANDO).
CARLINHOS- (ESPANTADO) O que é isso Rebeca?
REBECA- Ora amor, você não disse que nossa primeira vez teria que ser mágica, então, eu pensei... deve ser uma fantasia daquele safadinho. Aí me vesti de fadinha, só pra você! (NOVA INVESTIDA).
CARLINHOS- (ESQUIVANDO-SE) Rebeca, eu não quis dizer isso, você entendeu tudo errado.
REBECA- Amor não importa, vamos brincar de fada madrinha. Vai, eu vou realizar três desejos seus, os mais íntimos.
CARLINHOS- Primeiro, eu quero que você nunca deixe de me amar. Segundo, que me respeite... e terceiro..., que crie juízo!
REBECA- Ai amor que coisa melosa! Eu pensei que você fosse pedir umas safadezas, umas sacanagens!
CARLINHOS- Rebeca, acredite no amor, o amor é lindo.
REBECA- Amor, amor. Você vive lendo esse livreco, mas eu bem que sei, que os finados Romeu e Julieta gostavam de umas sacanagens.
CARLINHOS- O quê?
REBECA- Pois é, os dois viviam marcando esquema ás escuras, namorando escondidos, e o finado doidão, era doidão, pra dar uns pega na finada Julieta, e ela toda sonsa, se fazendo de difícil. Bicha siníca, até casar com ele escondida casou, só pra apressar a lua de mel.
CARLINHOS- Você está cometendo um crime contra um dos maiores clássicos do teatro. Está vulgarizando a obra de Shakespeare!
REBECA- Acredite se quiser, o finado Romeu era tarado na Julieta. Ah, vamos deixar os finados descansar em paz, e curtir nosso love. (DÁ UM SELINHO).
CARLINHOS- Você é meia desmiolada, mas eu gosto de você. Agora eu tenho que ir.
REBECA- (IRRITADA) Não amor o clima estava começando a esquentar!
CARLINHOS - Eu vou para a minha aula de ioga, depois a gente se fala. Tchau! (SAI PARA A RUA).
REBECA – Ai que homem gostoso! Mais ele é tão difícil... bem mais ele não pede por esperar! (SAI PARA OS QUARTOS)
(TOCA A CAMPANHIA)
BIA- Já vai, já vai. (ABRINDO A PORTA).
ANINHA- (ENTRANDO) A tia dona Estela mora aqui?
BIA- Mora, você deve ser...
ANINHA- (ABRAÇANDO-A) Aninha adesponha!
BIA- Pode entrar eu vou chama-la. (SAI PARA OS QUARTOS).
ANINHA- (ADMIRADA) Ai eu cheguei! Num tô creditando. (TRAZ UMA MALA) Eu cheguei nas cidade. Ai, tô muncionada, eu passei ali nas estradas, tinha montão de carro, montão assim ó. (FAZ GESTOS COM AS MÃOS) Tudo andando nas filinhas, a coisa mai linda! Tudo culorido! Mai eu morro de medo de andar naqueles carrão, prifiro andar de carroça. (A PORTA FICA ABERTA, ENTRA MIGUEL) Minha nossa senhora dos príncipe encantado, mai que home lindo! Ai, eu acho que eu ei de ser muito da feliz aqui.
MIGUEL- (USA ÓCULOS ESCUROS). Oi!
ANINHA- (TÍMIDA) Oi!
MIGUEL- Eu vim falar com o Zeca. Prazer meu nome é Miguel, você quem é?
ANINHA- Sou prima do Zeca, Aninha adesponha! (ELE BEIJA A MÃO DELA).
MIGUEL- Você se machucou?
ANINHA- Vê, mai pro mode de que eu ia de se machucar?
MIGUEL- Quando caiu do céu, você é um anjo!
ANINHA- Ai Jesus! Ai fiquei toda muncionada, toda rupiada óia. (MOSTRA OS BRAÇOS) Ui! O senhor num fala essas coisas moço, eu sou moça de famia.
(ENTRA BIA E DONA ESTELA)
DONA ESTELA- Aninha minha sobrinha querida! (ABRAÇA-A).
ANINHA- Tia, quanto tempo! Que sardade!
DONA ESTELA- (GRITA) Filhos, filhinhos venham receber a prima de vocês! (ENTRAM LUCAS, ZECA, MANU, REBECA E KELLY).
MANU- Priminha, você chegou! Ai eu tô roxa, roxa (ABRAÇA-A).
ANINHA- Quanto tempo Manu!
LUCAS- E aí Aninha, Beleza!
ANINHA- (ANINHA SEM ENTENDER) Brigada!
KELLY- Oi! Eu sou Kelly, futura mulher do Lucas. Obrigada por ter vindo nos ajudar com o casamento, são tantas coisas.
ANINHA- Aninha adesponha!
REBECA- Oi Aninha! Menina quanto tempo! Como você mudou!
ZECA- Oi a-a-a-ni-ni-nha!
ANINHA- Zeca ocê, ainda é gago!
DONA ESTELA- Aninha, essa é Bia, a filha da empregada, e aquele é Miguel, amigo do Zeca.
BIA- Tudo em cima!
MANU- Agora vem Aninha, vamos guardar essa mala.
REBECA- Ai temos tanto o que fazer.
DONA ESTELA- Por aqui querida! (SAEM DONA ESTELA, ANINHA, REBECA E MANU PARA OS QUARTOS).
KELLY - Bia você me prepara um lanche?
LUCAS - Epa, lanchinho eu também quero.
BIA- Claro, eu já tô prontinha! (SAEM PARA A COZINHA).
MIGUEL- E aí Zeca, cara vamos lá no Bar da Creuza?
ZECA- Da que-quelas garo-ro-tas eu tô tô fora!
MIGUEL- Você vai acabar morrendo virgem.
ZECA- Ho-ho-hoje eu vou me-me de-declarar pra bi-bi-Bia eu escrevi uma car-carta, e-ela va-vai ado-dorar.
MIGUEL- Você ainda tá afim da filhinha da empregada?
ZECA- (ELE RETIRA A CARTA DO BOLSO E MOSTRA A MIGUEL) Cla-cla-cla-ro que sim, Olha a car-carta.
MIGUEL- (PEGANDO A CARTA) Meu doce amor... cara, eu acabo de ter uma idéia?
ZECA- Q-que idéia?
MIGUEL- A tua prima é muito gata, meu amigo, eu preciso dessa carta, pra mandar pra ela.
ZECA- Ma-ma-mais a bi-Bia?
MIGUEL- Cara quebra esse galho, que depois eu te ajudo.
ZECA- Ju-ju-ra! O-olha lá a an-an-ninha é min-min-nha prima.
MIGUEL- Deixa comigo. Caiu na rede é peixe. Agora eu vou lá no bar da Creuza. (SAI PARA RUA, CARLINHOS VEM ENTRANDO).
ANINHA- (ENTRANDO DOS QUARTOS) Ai, tô dorando essa casa!
ZECA- Q-que bom, o-o-lha é pra vo-vo-vo-cê. (ENTREGANDO A CARTA).
ANINHA- Uma carta pra eu? Ai minha nossa senhora dos príncipe encantado! Mai quem mandou?
ZECA- Fo-foi o Mi-mi-miguel. Vo-você conhe-nhe-nheceu ele quando che-chegou. (SAI PARA OS QUARTOS).
ANINHA- Ai Jesus! Mia primera carta de amor! (ABRE A CARTA E LER) Meu doce amor. (Á PARTE) Ai, eu sou doce! Desde da primeira vez que ti vi, não consigo te esquecer. Queria dizer te amo, mas a timidez não deixa. (Á PARTE) Ai que lindo! Um abraço e um beijo! Mai ai Jesus, ele ama eu, ai que moção. Mai quando eu ver ele, vou me fazer de difici.
MANU- (ENTRANDO DA RUA) Oi priminha, que cara é essa?
ANINHA- É o amor prima. Eu tô toda apaixonada.
MANU- Mais já Aninha? Menina fiquei roxa, roxa.
ANINHA- Foi amor as primeira vista, ele tá todo apaixonado por eu. O nome dele é Miguel.
MANU- O Miguel? (Á PARTE) Tá ferrada.
ANINHA- Tô mermo ferrada de amor. Ele até mandou carta pra eu.
MANU- Deixa eu ver. Ai eu fico roxa, roxa. É, parece que o caso é sério. (OLHA PRA ANINHA) Você só tem que mudar um pouquinho.
ANINHA- Mudar, mai mode que?
MANU- Aqui na cidade as coisas são diferentes, Você tem que ficar na moda.
ANINHA- (CONFUSA) Nas modas?
MANU- É uma roupas mais sensuais, mais provocantes, um batonzinho... (O CELULAR TOCA, ELA ATENDE) Ai não, não acredito, é o Beto tarado. Ele adora beijar meu suvaco, eu tenho cócegas. Alô! Oi Betão, passar aí? Não sei... (ANIMA-SE) você comprou um presentinho pra mim? Tá, eu vou, mas só se você prometer não beijar meu suvaco. Porque eu não gosto. Ai que saco! Betão eu não depilei, é pois é. Tchau!
ANINHA- (ESTRANHANDO) A prima deixa ele tirar os cabimento com ocê?
MANU- Aninha hoje em dia tudo pode, tá tudo liberado. Ai, eu fico roxa, roxa.
ANINHA- Liberado? Mai nunca que eu ei de deixar home nenhum beijar o suvaco de eu.
BIA- (ENTRA BIA DA COZINHA VARRENDO) Aí Manu, você nem me contou como foi a balada, menina.
MANU- Ai, eu fiquei roxa, roxa, curtir todas tô até cansada.
BIA- Cansada de quê?
MANU- Porque a noite de ontem foi muito romântica pra mim sabe...
BIA- Jura?
MANU- (SUSPIRA) Juro, eu beijei o Felipe, beijei o Mateus, o Alex, o Dani, o Beto e fiquei com Gustavo, com o Ricardão, com o Robinho aloprado e com o Ronaldo.
BIA- (SE ABANA) Menina, que loucura, você devia arrumar um pra mim. Eu já tô prontinha.
Manu- AI, EU FIQUEI ROXA ROXA AGORA EU TENHO QUE IR TCHAUZINHO. (SAI PARA A RUA).
BIA- (VINDO DOS QUARTOS) E aí Aninha tá gostando?
ANINHA- Muito por demais. Nesse cadim de tempo eu já achei até um príncipe.
BIA- Sério? Ai eu já tô prontinha. Eu até tenho um namorado, mas não é nada sério ainda. (PAUSA. PARA ANINHA) Quem é ele?
ANINHA- Mai eu tô nervosa, eu nunca beijei.
BIA- O quê? Menina tu já devia tá prontinha.
ANINHA- Será que beijar dói?
BIA- Menina, eu tinha de medo de morrer sem beijar na boca, beijar é bom demais!
ANINHA- Ocê já beijou? Tão novinha.
BIA- Novinha nada. Eu já tenho quatorze anos e meio, já tenho peito e bunda. Já tô prontinha.
ANINHA- Mai ocê num gosta mais de pular corda, brincar de boneca, de...
BIA- (CORTANDO-A) Isso nem existe mais menina, as crianças hoje já nascem pedindo batom, maquiagem e salto alto.
ANINHA- (ASSUSTADA) Ai Jesus! Só pode ser os fim do mundo. Mas ocê num queira butar as carroças nas frente dos boi que num da certo. Eu vou cuidar no enxoval do primo. (SAI PARA OS QUARTOS).
BIA- Muito criança, muito criança, ora essa! Tem menina com dezoito anos que já é avó. (PENSANDO) Será que tá certo o que eu estou fazendo, saindo com homem casado? Ah, mas também, o Lucas ainda não é casado, é noivo. E que não tem cão caça com gato.
LUCAS- (VINDO DOS QUARTOS) E aí gatinha? (ABRAÇANDO-A).
BIA- (AFASTA-SE) E aí digo eu.
LUCAS- (VINDO DOS QUARTOS) O minha gostosa?
BIA- Para Lucas, eu já falei que aqui na sua casa não.
LUCAS- O que foi?
BIA- Eu sei que a Kelly vai ter um filho seu, mas não precisa casar com ela. Eu não quero ser mais a outra. Eu já tô prontinha pra ficar com você.
LUCAS- Qual é Bia?
BIA- Qual é você, tá pensando que eu sou tonta?
LUCAS – Biazinha não fala assim que maltrata.
BIA- Eu só me envolvi com você, porque não achei nada melhor. Eu morria de medo, de morrer sem beijar na boca. Você não terminou com a Kelly ainda.
LUCAS- Tudo bem, eu vou pensar!
BIA- Vai pensar coisa nenhuma! Eu me entreguei pra você, porque você disse que terminar com a Kelly e ficar comigo! Eu confiei em você Lucas. Se você não desistir desse casamento, eu abro o jogo, e conto que ela tá triste de ser chifrada.
LUCAS- Calma, tudo vai se resolver.
BIA- Calma nada Lucas! Você me pediu uma prova de amor e eu dei. Agora é você que tem que provar o seu. (SAI PARA A COZINHA).
LUCAS- Me da um beijinho vem. (VÃO SE BEIJAR, DONA ESTELA ENTRA, ELES SE ASSUSTAM).
DONA ESTELA- (ENTRA DOS QUARTOS COM UM CARTAZ ONDE SE LÊ: ABAIXO A SACANAGEM VIVA O AMOR). Abaixo a sacanagem, viva o amor! Viva o amor, abaixo a sacanagem! O homem de hoje se coisificou na busca do prazer pelo prazer. Sem amor, sem sentimento, só pode ser coisa do demônio! Isso está acabando com a nossa sociedade. Por isso a partir de hoje, dou início a campanha : abaixo a sacanagem viva o amor!
LUCAS- Que papo é esse?
DONA ESTELA- Filho, eu e as irmãs da paz, lançamos esta campanha, e pretendemos alcançar até os confins da terra. Sairemos de porta em porta, de rua em rua, de escola em escola. Vamos resgatar a moral e o bom costume. Que bom seria que todos fossem responsável como você, honesto, fiel a mulher que ama, eu tenho muito orgulho de você!. Bia minha filham, você não quer me ajudar na campanha? Eu estava pensado você de madre, andando pelas ruas...
BIA- (DISFARÇANDO) O que é isso dona Estela, pirou? Que papo é esse?
DONA ESTELA- Bia, isso é uma obra de fé. Você não vê que nos dias de hoje os abortos, as dst’s, gravidezes na adolescência, e a severgonhice estão invadindo a sociedade.
LUCAS- Mas a camisinha está aí, sem falar que televisão, rádio, escolas, hospitais nos alertam o tempo todo.
DONA ESTELA- Sei, o tal sexo seguro, mas ainda assim as relações com um único parceiro, e a castidade são os melhores meios de prevenção.
LUCAS- Castidade, único parceiro, mãe acorda nós estamos no século XXI.
DONA ESTELA- Por isso a sacanagem pode rolar solta? Não filho, quem tem que acordar é você. Essa realidade só vai mudar se começar por cada um de nós.
BIA- Epa, o papo está ficando sinistro. Eu vou lavar minha louça (SAI).
DONA ESTELA- Essa menina não está bem, você percebeu meu filho? Só pode ser o demônio. Essa menina tem encosto, eu vou falar com ela (SAÍ PARA A COZINHA).
LUCAS- Não viaja mãe (SAI PARA COZINHA).
CARLINHOS- Aporta aberta? Estranho. (GRITA) Rebeca, Rebeca! (DE REPENTE VINDO DA RUA, ENTRA UM LADRÃO CORRENDO E COM UMA ARMA).
LADRÃO- Se liga aí meu irmão, mãos pra cima!
CARLINHOS- Calma aí cara, eu não moro aqui. E aqui é uma casa de família.
LADRÃO- Que calma o que rapa? Se liga!
CARLINHOS- Olha leva tudo, os móveis, as panelas, os eletrodomésticos. Mais não me mata por favor, eu sou muito novo para morrer, tenho apenas dezessete anos. Minha mãe disse que me matava se eu morresse antes dela.
LADRÃO- Que matar o que rapa? Quem tá falando em matar? E eu também não quero levar nada.
CARLINHOS- Não? O que você quer então?
LADRÃO- Eu vi você entrando, e vim bater um papo com você.
CARLINHOS- Ladrão estranho. O que você quer comigo?
LADRÃO- Olha cuida de sua namorada, por que se não...
CARLINHOS- (CORTANDO) Se não o que? O que é que tem a Rebeca?
LADRÃO- Você tem que dar uns trato nela, pegar ela de jeito, entendeu?
CARLINHOS Nós vamos casar virgens, puros, imaculados.
LADRÃO- Se ajoelha meu irmão e repete comigo: a Rebeca é uma gostosa! (APONTANDO A ARMA).
CARLINHOS- (DE JOELHOS) A Rebeca é uma gostosa!
LADRÃO- Eu fico doidão com ela!
CARLINHOS- Eu fico doidão com ela!
LADRÃO- Eu vou dar uns pega nela! Vou pegar ela de jeito!
CARLINHOS- Isso eu não repito! Tá maluco? E as regrinhas do amor?
LADRÃO- Quer morrer meu irmão? (APONTANDO A ARMA)
CARLINHOS- Não, quero não.
LADRÃO- Então repete!
CARLINHOS- (SOFRENDO) Eu vou dar uns pega nela! Vou pegar ela de jeito!
LADRÃO- Agora promete! Eu prometo...
CARLINHOS- Eu prometo...
LADRÃO- Que vou levar a Rebeca pra cama!
CARLINHOS- Como é que é? Vá me desculpar seu ladrão , mas isso vai contra todas as regrinhas do amor.
LADRÃO- Quer morrer? Vamos logo mané! (APONTANDO A ARMA).
CARLINHOS- (QUASE MORRENDO) Eu prometo pra nossa senhora, que vou levar a Rebeca pra cama!
LADRÃO- Agora se manda!
CARLINHOS- (LEVANTANDO-SE) Não faça mau a ninguém, por favor! (SAI CORRENDO).
REBECA- (TIRANDO O CAPUZ) Ufa! Como foi difícil fazer um ladrão! Ai, eu acho que dessa vez vai dar certo. O Carlinhos sempre foi muito religioso. Ele vai ter que cumprir a promessa. Ai, agora eu vou preparar a próxima parte do plano. (VAI SAINDO)
ZECA – Que ro-ro-roupa é é essa?
REBECA – Não enche irmãozinho.
ZECA – Se se amos-amos-tre viu!
(TOCA A CAMPANHIA, ZECA ATENDE)
MIGUEL- (ENTRANDO) E aí Zeca, a carta deu certo?
ZECA- A-a-até de-demais!
MIGUEL- É meu amigo, caiu na rede é peixe.
ZECA- Você di-di-disse que ia me a-a-ajudar com a bi-bi-Bia.
MIGUEL- Tudo bem! Primeira coisa: Mulher não gosta de homem certinho meu, você tem que mudar..
ZECA- Mu-mu-mudar?
MIGUEL- É tira esses óculos. Estufa o peito, e age como macho!
ZECA- Ma-ma-mais eu já sou ma-ma-macho.
MIGUEL- (ZOMBANDO) Macho de verdade cara!
ZECA- (SEM ENTENDER) De ver-ver-verdade?
MIGUEL- É que, tal você pegar umas garotas você tem que provar que é homem cara!
ZECA- (CONFUSO) Pro-pro-provar?
MIGUEL- Claro meu, olha pra mim. Eu sou demais, eu sei o que eu estou dizendo. As minas se amarram em mim!
ZECA- Co-co-como a-a-assim?
MIGUEL- E você também tem que ser bem abusado!
ZECA- (IMITANDO) A-bu-bu-sa-sado!
MIGUEL- É, e tem que falar grosso.
ZECA- (AINDA IMITANDO-O) Fa-fa-falar grosso!
MIGUEL- E tem que ser malandro!
ZECA- Malandro!
MIGUEL- Tem que coçar o saco, cuspir, arrotar!
ZECA- Ma-ma-machão!
MIGUEL- É isso aí meu, você aprende rápido. Agora vamos para a prática, vamos lá no bar da Creuza.
ZECA- Va-va-vamos ne-ne-nessa!
MIGUEL- Antes, é melhor você tirar essa roupinha de mané, e vestir uma roupa de macho!
ZECA- Tá le-le-legal! Vo-vou ves-vestir uma ro-ro-roupa de ma-macho. (VAI SAINDO PARA OS QUARTOS E PASSA POR ANINHA).
ANINHA- Oi primo! (VER MIGUEL SEM QUE ELE PERCEBA) Príncipe! Ai, cadê a Manu? Ela disse que eu devia de dar umas mudada, mai eu num sei como. (COM UM BATOM) Eu peguei uns batom dela. Eu ei de ficar muito das gatona. Mai eu num truxe nem espei, mai vai assim mermo. (PASSA O BATOM APRESSADA E SE BORRA TODA) Ai será que ficou bom?
MIGUEL- (VINDO DA COZINHA) Oi gata!
ANINHA- Ai Jesus! Oi, ocê num gustou dos meu batom?
MIGUEL- Que boca linda você tem!
ANINHA- Eu gostei de mais da carta.
MIGUEL- (APROXIMANDO-SE ) Foi? Então porque você não me da um beijão daqueles.
ANINHA- (ASSUSTADA) Não! Mai num pode, minha mãe me ensinou a eu que tem que segui as regrinhas do amor. E eu num posso beijar assim de vez, tem que ter dois mês de selinho.
MIGUEL- O quê? Pensei que você fosse uma garota moderninha.
ANINHA- Mai eu sou toda das mordenas.
MIGUEL- Então me beija.
ANINHA- (ENVERGONHADA) Mai eu num sei beijar.
MIGUEL- Eu te ensino. Olha você fecha os olhos, (ELA SEGUE AS INSTRUÇÕES) faz biquinho. (ELE VAI BEIJA-LA, MAS ELA RIR) O que foi?
ANINHA- É que eu sou toda cheia das vergonhas.
MIGUEL- Vamos tentar mais uma vez. (VAI BEIJA-LA, MAS ELA RIR NOVAMENTE) O que foi agora?
ANINHA- É que eu fico toda da nervosa.
MIGUEL- Relaxa!
ANINHA- Mirguel, príncipe umas pergunta: O que eu faço com a cabeça?
MIGUEL- Como assim?
ANINHA- É que eu vejo nas novela, as moça joga as cabeça pos lado e pos outro.
MIGUEL- (IMPACIENTE) Você balança a cabeça pro lado que quiser, na hora que quiser!
ANINHA- (NERVOSA) Então tá bom. Ai minha nossa senhora dos príncipe encantado, ajuda eu. (ELA FAZ BICO E FECHA OS OLHOS, ELE A BEIJA. ELA TODA DESAJEITADA NÃO PARA DE BALANÇAR A CABEÇA).
MIGUEL- Gostou?
ANINHA- Faz cosquinha nas boca.
MIGUEL- Assim é bem melhor! (AGARRA E ROUBA UM GRANDE BEIJO, ELA ESPERNEIA).
ZECA- (VINDO DOS QUARTOS) Mi-mi-guel?
(MIGUEL SOLTA ANINHA QUE FICA EM ESTADO DE CHOQUE)
ZECA- E a ro-ro-roupa fi-fi-ficou maneira?
MIGUEL- É até que ficou legal. Agora vamos lá no bar da Creuza.
ZECA- De-de-de-morou! (SAEM PARA A RUA, ENTRA ANINHA E MANU VINDO DA COZINHA).
MANU - E ai, Aninha tudo bem?
ANINHA - Eu, beijei prima eu beijei. Ai eu fiquei tão nervosa, que eu quase, fazia xixi nas saia.
MANU- A prima, você tem que se acostumar. Por aqui, as coisas são assim mesmo. Você gostou do beijo do Miguel?
ANINHA- Ele primeiro ia me ensinar beijar, eu fechi os zoi, fiz biquim, balancei as cabeça e tudo, adespois ele me deu um pegão, arrochou eu e quase arrancava minha língua.
MANU- Ai eu fico roxa, roxa. Mas agora você tem que se preocupar com o seu visual.
ANINHA- Mai ocê acha mermo que eu tenho que mudar?
MANU - Claro. Você tem que ser mais ousada... Mais pode deixar comigo que eu dou um jeito em você. Agora vamos menina, você vai ficar um arraso. (SAEM PARA OS QUARTOS.
KELLY- Pára de me seguir Pedro Lucas Jorge Afonso e Silva. Não sei por que você não deixou eu fazer a viagem.
LUCAS- Só se eu fosse maluco, de deixar você se matar com essa criança na barriga.
KELLY- (INDIGNADA) Então quer dizer que se eu não estivesse grávida, você teria deixado eu fazer a viagem numa boa.
LUCAS- Claro! você seria muito mais feliz lá no andar de cima. Eu só teria pena de São Pedro.
KELLY- Agora não tem quem me segure. Eu acho que vou até organizar uma despedida de solteira bem fatal.
LUCAS- Nem pensar, mulher minha tem que andar na linha. Eu que terei uma despedida de solteiro.
KELLY- Você pode, eu não? Tá vendo filhinho? (FALANDO COM A BARRIGA) Sua mãe tem uma vida de escrava! Não posso sair com as amigas, não posso mais ir para as farras. Sem falar que eu vou ficar semi-analfabeta, porque não posso mais estudar. Já o carrasco do seu pai, sai toda noite, e ainda filhinho tem uma praga de uma amante.
LUCAS- Não faz isso Kelly, isso é chantagem emocional com o moleque, se continuar assim ele vai nascer com paterfobia.
KELLY- E o que danado é isso?
LUCAS- Pater vem de paternidade e fobia de medo. É isso, ele vai nascer com medo do pai.
KELLY- Nossa vida era outra antes de noivarmos. Se eu soubesse que ia ser assim, eu não teria inventado nada.
LUCAS- E o que foi que você inventou?
KELLY- Eu menti, eu não estava tomando pílula, eu estava com medo de lhe perder. Achei que um filho poderia nos unir.
LUCAS- (ESPANTADO) Você provocou a gravidez? Você é uma mula! Eu tenho apenas dezoito anos e você dezessete. Não sabemos nem cuidar do nosso próprio nariz, quanto mais de uma criança! Onde você estava com a cabeça?
KELLY- Sei lá, devia ser um lugar bem podre.
LUCAS- Isso vai me trazer problemas por toda a vida, eu acho que eu vou procurar um psicólogo. (VAI SAINDO PRA RUA, ENTRA MANU VINDO DOS QUARTOS).
KELLY- Você deveria procurar um A.S.A, associação dos sem vergonhas anônimos. Não esqueça que temos que ir para o ensaio do casamento.
LUCAS- Fala sério, além de casar você ainda quer que eu ensaie.
KELLY- Insensível! (FALANDO COM A BARRIGA) está vendo filhinho, como é sofrida a vida da sua mãe. (GRITA) Bia, Bia!
BIA- (ENTRA CORRENDO DA COZINHA) Chamou Kelly?
KELLY- Chamei, chamei sim. Por favor Bia, me traga uma cachaça daquelas bem fortes, de virar a perna.
BIA- Já volto. (VAI SAINDO, E SÓ AÍ CAI EM SI) Cachaça? Mas Kelly não vai fazer mau para a criança?
KELLY- Não! Meu filho vai entender. Ele é muito compreensivo.
BIA- Kelly o que houve?
KELLY- O Lucas está me traindo com uma baranga, uma pilantrinha qualquer, você acredita?
BIA- (DISFARÇA) Lucas, como você teve coragem?
LUCAS- Ah não, duas é demais!
KELLY- Agora me diga Bia o que você faria com uma criatura dessa?
BIA- Eu? Rezava por ela, entregava ao pai.
KELLY- Não. Eu estava pensando em algo mais cruel, sabe? Tampe os ouvidos meu filho. Eu estava pensando em pegar a bicha pelo pescoço dar uns tapas na cara dela, e depois torcer, torcer, mais torcer de um jeito... (ZECA ENTRA DA RUA COM UM ENVELOPE).
BIA- Aí Zeca meu filho, ainda bem que você chegou. Toma conta desses dois que o bicho tá pegando (SAÍ PARA COZINHA).
ZECA- Es-es-espe-pera Bia..
KELLY- Eu quero saber o nome, eu vou cortar o cabelo dela de foice anda desembucha!
LUCAS- (PEGA-A PELO BRAÇO) Vê lá como fala comigo!
KELLY- Você está me machucando me solta! (EMPURRA LUCAS) Ô Bia, traz a cachaça. Desculpa filhinho, mas eu vou me esculhambar, vou virar bandida.
ZECA- Ca-ca-calma aí Ke-Kelly.
LUCAS- Tá vendo meu filho, quem é a sua mãe de verdade? Quer saber? Cansei Zeca diz pra essa debi mental dá o fora da minha casa.
ZECA- E-e-ele man-man-mandou...
KELLY- (CORTANDO) Pergunta pra ele se ele pensa que eu sou papel higiênico para ele usar e jogar fora.
ZECA- E-e-ela tá per-per-pergun-tando...
LUCAS- (CORTANDO) Diz pra ela que acabou. Não vai ter casamento!
ZECA- A-a-ca-cabou...
KELLY- (CORTANDO) Diz pra ele que eu estou decidida, vou virar bandida, e vou esquartejar a vadia que está saindo com ele e depois vou cortar os possuídos dele fora.
ZECA- (JÁ IMPACIENTE) E-e-ela...
LUCAS- Meus possuídos não! Ô Zeca...
ZECA- (NERVOSO) Che-che-che-ga! Va-va-vão se da-da-nar vo-vocês do-dois.
LUCAS- Boa idéia, vai se danar Kelly! (SAI PARA OS QUARTOS).
KELLY- Volta aqui! Pedro Lucas Jorge Afonso e Silva! (SAI TAMBÉM PARA OS QUARTOS).
MANU- (PASSANDO POR KELLY E LUCAS) Eles sempre brincam de uma maneira estranha. Ai eles são tão felizes. Aninha pode vim, priminha fica tranqüila você está perfeita!
ANINHA- (ENTRA COM UMA ROUPA DECOTADA, MUITO CURTA E DE SALTO) Ai Manu, eu tô toda desajeitada, eu num sei andar nessas coisa.
MANU- Você está linda, ai eu tô roxa, roxa. Aninha o Miguel vai adorar.
ANINHA- Mai eu pensava que os príncipe adevia de ser romântico.
MANU- Ah, aquilo foi só o começo tem muito mais além do beijo e do abraço.
ANINHA- (ASSUSTADA) Mais? Ai Jesus, minha nossa senhora dos príncipe encantado ajuda, eu.
MANU- Você está quase pronta. Roupa, maquiagem, agora solta o cabelo e joga. (ANINHA SEGUE AS INSTRUÇÕES) Isso, agora anda e rebola bem.
ANINHA- Arre, mai eu tô muito das feia.
MANU- Perfeito! Agora você é Ana tesão.
ANINHA- Cruz credo! Esses negócio de Ana dos tesão deve de ser até pecado.
MANU- Que nada priminha, como diria a Bia: você está prontinha!
ANINHA- Mai pra quê?
MANU- Pra se entregar e conhecer o paraíso.
ANINHA- Quer dizer que eu ei de morrer?
MANU- Não querida, o paraíso que eu estou falando é outro... (COCHICHA).
ANINHA- (ASSUSTADA) Ocê quer dizer...
MANU- Isso mesmo filhinha!
ANINHA- (IRRITADA) Manu, ocê me arespeita, me arrespeita que eu sou moça de famia!
MANU- Que mané respeito, você não ganha nada com isso. Aninha, menina fecho! Você tá o bicho!
ANINHA- Manu que eu num tó bem, mai eu tô mermo parecendo um bicho?
MANU- Não querida, eu quis dizer que você está linda, você já tá prontinha!
ANINHA- Jura? Será que o príncipe vai gostar? (TOCA A CAMPANHIA)
MANU- Deixa eu atender (ATENDE A PORTA). Oi Miguel! (SAI PARA OS QUARTOS).
ANINHA- Ai Jesus!
MIGUEL- (ENTRANDO) Uau! Que transformação!
ANINHA- Gostou de eu assim?
MIGUEL- Você tá muito gata!
ANINHA- Brigada!
MIGUEL- Aninha...
ANINHA- (CORTANDO-O) Aninha não. Ocê pode me chamar eu de Ana dos tesão.
MIGUEL- Gostei, Ana tesão! Gata, eu estou precisando falar com você.
ANINHA- Ai minha nossa senhora dos príncipe encantado!
MIGUEL- Olha gata, eu queria ficar com você.
ANINHA- Ficar com eu? Mai eu num tô entendendo Miguel, eu sou moça donzela.
MIGUEL- Não tem nada de mais em ficar.
ANINHA- Mai eu num sei nem o que é ficar.
MIGUEL- É o mesmo que namorar, só que sem compromisso, só uma noite.
ANINHA- Mai abraça?
MIGUEL- Claro.
ANINHA- Mai beija?
MIGUEL- Claro, se não qual a graça?
ANINHA- Mai sem compromisso? Ai Jesus deve de ser até pecado.
MIGUEL- Que nada gata (BEIJA NO ROSTO).
LUCAS- (ENTRANDO, VINDO DA RUA) Atrapalho alguma coisa?
ANINHA- Não. Pode entrar primo ocê num atrapalha nada. (SAI PARA A COZINHA).
ZECA- (ENTRANDO, VINDO DA RUA) E a-aí ga-ga-le-lera?
LUCAS- Zeca, o que aconteceu com você?
CARLINHOS- (VINDO DA RUA) Zeca o que aconteceu com você?
ZECA- A-a-a-go-gora nin-nin-ninguém ma-mais vai me zu-zuar. Eu per-perdi a vir-vir-virgindade. Eu saí com uma ga-ga-garota, e ela fe-fez o ser-ser-viço.
CARLINHOS- Ai que falta de amor, vem cá você usou camisinha não foi?
ZECA- Cla-cla-claro, q-q-que n-não... eu es-es-queci, eu es-es-tava ani-ani-madão, no embalo... mas ela estava lim-lim-pinha cer-cer-teza.
MIGUEL- Isso é besteira.
LUCAS- Eu é que sei, eu também achava isso antes da Kelly engravidar.
CARLINHOS- Sei não, acho melhor você correr e fazer um exame.
MIGUEL- E você Carlinhos, já pegou a Rebeca?
LUCAS- Vê lá como fala cara, ela é minha irmã.
CARLINHOS- Eu não peguei ninguém, a mulher não é uma coisa, um animal. Ela é alguém, é uma pessoa. E eu e a Rebeca vamos casar virgens, puros e imaculados.
MIGUEL- Sei. (PARA ZECA) E a garota lá era gostosa mesmo?
ZECA- Ô se e-e-era.
CARLINHOS- Como vocês podem avaliar uma mulher pelas aparência? Um olhar que só vê corpo bonito. E o caráter, A cabeça dela não importa?
TODOS- Não!
CARLINHOS- Bando de insensíveis. Vocês não sabem o quanto o amor é lindo!
LUCAS- (PARA ZECA E MIGUEL) Será que ele é?
MIGUEL- Bem, o papo tá muito bom mais eu vou indo. (SAI PARA RUA).
ZECA- E eu vo-vou no ban-ban-banheiro (SAI).
LUCAS- Eu, eu... eu também. (SAI PARA OS QUARTOS).
ANINHA- (ENTRA VINDO DA COZINHA) Ai, eu ainda num custumei com essas sandaias. Eu fico andando toda das bamba. (TROPEÇA, E SE APOIA EM CARLINHOS) Ai Jesus! Desculpa eu moço, é que eu sou mermo toda das desastrada.
CARLINHOS- Não, não foi nada. Mas quem é você?
ANINHA- Eu sou sobrinha da minha tia, dona Estela, Aninha adesponha.
CARLINHOS- (QUE ESTÁ SEMPRE COM O LIVRO) Prazer Aninha. Eu sou Carlinhos, namorado da Rebeca.
ANINHA- (PEGANDO O LIVRO DE CARLINHOS) Mai é um livro? Ai eu doro ler. A prossora Francisca, ensinou a eu as letrinha tudim. (LENDO) Romeu e Julieta. Ah, o amor é lindo!
CARLINHOS- Você também acha?
ANINHA- Acha o quê?
CARLINHOS- O amor lindo.
ANINHA- Mai é lindo demais da conta. (PAUSA) Mai eu gosto mermo é daquela história que a bruxa manda o moço rancar os coração das princesa, mai o moço num arranca, ele arranca mermo é o coração do porquim. Aí as princesa corre, corre e acha uma casa todas pequenininha. A coisinha mai linda. A casa é toda cheinha de anão pequenim. Ai eu fico toda muncionada.
CARLINHOS- Eu também gosto muito de branca de neve e os sete anões.
ANINHA- Ai, eu queria muito viver uma história dessas. Ser uma princesa toda bonita. Toda da encantada.
CARLINHOS- (SUSPIRA) Ai, eu também!
ANINHA- (ESTRANHA) Ocê?
CARLINHOS- Eu quis dizer que também gostaria de viver uma história de amor assim.
VOZ DE REBECA- Carlinhos amor, você está aí?
CARLINHOS- (ENVERGONHADO) É a voz da Rebeca. Estou sim amor!
REBECA- Venha aqui no meu quarto vem meu bem.
CARLINHOS- Depois amor. (PARA ANINHA) Eu não posso ir no quarto dela só depois do casamento.
ANINHA- Mai tá certo, tem que ter respeito.
CARLINHOS- Bem, mais eu não estou com pressa, eu espero aqui mesmo. (SENTA NO SOFÁ)
DONA ESTELA- A minha campanha foi um sucesso, oi Carlinhos tudo bem? Oi Aninha, então tá gostando?
ANINHA- Muito demais, eu até já achei um príncipe.
DONA ESTELA- É ainda não falamos sobre isso, mas que conversa é essa Aninha? Faz apenas vinte dias que você está aqui.
ANINHA- Foi um príncipe todo dos bonito. Só que ele tem umas manias que eu num entendi. Ele num gosta de namorar sério, ele disse que hoje em dia o povo só fica.
DONA ESTELA- (INDIGNADA) Ficar? Ele quer usar você minha filha, não deixe que tratem você como latinha de refrigerante, enquanto está na mão é ótima, mas depois que mata a sede joga fora.
ANINHA- Usar eu? Mai eu sou moça de famia.
DONA ESTELA- Os jovens inventaram isso para ficar de sacanagem. Isso só pode ser coisa do demônio.
ANINHA- Sacanagem? Ai Jesus! Mai será que ele num ama eu?
DONA ESTELA- Pois é, com essa mania do ficar, o amor está entrando em extinção. Cuidado querida! (SAI PARA A COZINHA).
ANINHA- Será? Será que o príncipe tá fazendo de eu de latinha de refrigerante?
CARLINHOS- Falou Aninha?
ANINHA- Não, não, tchau! (SAI PARA OS QUARTOS)
NOSSA SENHORA- (ENTRANDO, VINDO DOS QUARTOS) Carlinhos, Carlinhos...
CARLINHOS- (SEM VÊ-LA) Quem me chama?
NOSSA SENHORA- (VOZ SUAVE, SEU MANTO COBRE O SEU ROSTO) Carlinhos, Carlinhos...
CARLINHOS- (COM MEDO) Será que é a morte?
NOSSA SENHORA- (IRRITADA GRITA) Ora essa, Carlinhos!!!
CARLINHOS- (DANDO DE CARA COM NOSSA SENHORA) Nossa senhora, é a senhora mesmo?
NOSSA SENHORA- Em, manto, véu e alma.
CARLINHOS- A que devo a honra?
NOSSA SENHORA- Vim cobrar uma promessa, Que você me fez à alguns dias atrás.
CARLINHOS- Mais por que a senhora está com o rosto coberto?
NOSSA SENHORA- Por que? Porque... porque... é moda, mania no espaço celeste.
CARLINHOS- (DESCONFIADO) Não sabia que as santas se ligavam em modas.
NOSSA SENHORA- Bem, vamos ao que interessa, e quanto a promessa?
CARLINHOS- Mais que promessa?
NOSSA SENHORA- Você prometeu a um honesto bandido, em meu nome, que levaria a sua namorada pra cama.
CARLINHOS- Claro, eu ia me esquecendo... vem cá, mas pecar contra a castidade não é pecado?
NOSSA SENHORA- (SURPRESA) Pecado? Meu filho, é a modernidade, tá tudo liberado, aqui e lá no espaço celeste.
CARLINHOS- (DESCONFIADO) Moda, modernidade, Estranho não?
NOSSA SENHORA- Meu filho, você vai cumprir a promessa ou não?
CARLINHOS- Sabe o que é dona santa? É que eu gosto demais da Rebeca, pra resumir tudo numa simples pegada.
NOSSA SENHORA- Mais você me deu a sua palavra.
CARLINHOS- É verdade. (PENSA) Já sei! Eu prometi leva-la pra cama, e isso não significa... é isso eu á levo pra cama, e ponho ela pra dormir.
NOSSA SENHORA- (IRRITADA) Olha aqui meu filho, deixa de ser mole, e pega logo a Rebeca de jeito!
CARLINHOS- (CADA VEZ MAIS DESCONFIADO) Uma santa falando assim? (PUXA O VÉU) Rebeca?!
REBECA- (ENVERGONHADA) Oi!
CARLINHOS- Você também era o ladrão?
REBECA- Pois é, eu ando muito criativa.
CARLINHOS- O que significa isso?
REBECA- (RETIRANDO A BECA) Carlinhos, namoro sem sacanagem não é namoro. (APROXIMANDO-SE DE CARLINHOS) Vem cá vem, meu gostosão. Vem me fazer feliz.
CARLINHOS- Rebeca, (FUGINDO DELA) as regrinhas do amor, vamos casar virgens, puros, imaculados lembra?
REBECA- Vem cá, vem meu Carlão! (AGARRA-O) Ai amor agora ou vai ou racha! (COMEÇA A BEIJA-LO).
CARLINHOS- Socorro, socorro!
MANU- (ENTRA VINDO DA RUA) Gente que loucura! Ai eu fico roxa, roxa.
CARLINHOS- (CONSEGUINDO SE SOLTAR) Ai Manu que bom que você chegou, acalma ai a Rebeca que eu vou tomar um copo de água acalma ai a Rebeca que eu vou tomar um copo de mento ). (SAI PARA A RUA).
REBECA- Manu minha irmã querida, você é a minha salvação.
MANU- Eu, por quê?
REBECA- É o Carlinhos, eu estou achando que ele é MENINA!
MANU- Ai eu tô roxa, roxa. E agora?
REBECA- Eu queria que você tenta-se seduzi-lo pra valer.
MANU- Seduzir o Carlinhos?
REBECA- Isso, é caso de vida ou morte.
MANU- Ai eu tô roxa, roxa.
REBECA- Temos que combinar tudo. (VER O ENVELOPE QUE MANU TRAZ CONSIGO) Que envelope é esse? São exames. Você está doente Manu?
MANU- (NERVOSA) Não... é que eu estava sentindo uns enjôos, umas tonturas, aí decidi fazer esse teste de gravidez.
REBECA- E aí?
MANU- E aí que deu positivo, eu estou gravida, e agora eu não sei o que fazer. Eu sei que tá na moda ficar grávida na adolescência, mas... depois eu penso nisso.
REBECA- Manu, se a mãe descobre isso ela te mata.
MANU- Nem me fala, eu fico roxa, roxa. (ESCULTAM RUIDOS)
REBECA - É o Carlinhos, ele deve está voltando, boa sorte. (SAI PARA OS QUARTOS, ENTRA CARLINHOS).
MANU - Oi Carlinhos, tudo bem?
CARLINHOS- (ENTRANDO) Mais ou menos, sabe a Rebeca não quer aceitar minha decisão de casar virgem. Você acha isso certo?
MANU- (JÁ AVANÇANDO) Ah! Carlinhos essa coisa de virgindade caiu de moda, e casar então, não tem mais nada a ver (TENTA BEIJA-LO, ELE RECUA).
CARLINHOS- Que mané moda, amor e virgindade não precisam de moda. É uma questão de atitude!
MANU- (TENTA SEDUZI-LO) Olha pra mim Carlinhos, fala o que você sente?
CARLINHOS- (APROXIMANDO-SE DELA) O que eu sinto?
MANU- É.
CARLINHOS- Sinceramente... Pena!
MANU- (DECEPCIONADA) Pena? Ai, eu fiquei roxa, roxa.
CARLINHOS- É porque você é tão oferecida, tão vulgar, que ninguém nunca vai querer namorar com você sério. Você nunca saberá o quanto o amor é lindo. Depois eu falo com a Rebeca.
REBECA- (ENTRA VINDO DOS QUARTOS) E aí Manu?
MANU- Só porque eu sou moderna, gosto de relacionamento doril, tomou, beijou a dor sumiu! Beijinho gostoso, amassadinha rápida, sem compromisso, só pra curtir. Só por isso ele quase acabou comigo, só não me chamou de santa. E olha que eu dei o maior mole pra ele. Ai chega eu fiquei roxa, roxa.
REBECA- Então você acha...
MANU- Eu não acho nada querida, eu tenho certeza. É um menininha, agora tenho que ir vou resolver um probleminha (SAI PARA A RUA).
REBECA- Será que ele é?
MIGUEL- (ENTRA VINDO DA RUA) E aí Rebeca, tudo em cima!
REBECA- (TRISTE) Tirando o fato que eu descobri que meu namorado é menina, tudo ótimo.
MIGUEL- Eu sempre desconfiei do Carlinhos. Nós nunca mais saímos juntos.
REBECA- Ah Miguelzinho, eu estava ocupada com o idiota do Carlinhos.
MIGUEL- Idiota? Você não amava ele?
REBECA- Claro que não. Eu só tinha atração por ele, de quem eu sempre gostei mesmo foi de você.
MIGUEL- Pensei que tivesse me esquecido. (ABRAÇA-A) Caiu na rede é peixe.
REBECA- Eu vou me arrumar pra gente sair (SAI PARA OS QUARTOS).
ZECA- (VINDO DOS QUARTOS COM ENVELOPE) Tô fe-fe-rrado ca-cara.
MIGUEL- O que aconteceu?
ZECA- (DESESPERADO) Eu fi-fiz o tes-tes-te do hiv.
MIGUEL- E aí?
ZECA- De-deu po-po-si-si-tivo. Eu es-es-tou com aids.
MIGUEL- Aids? Meu isso é o que da esquecer a camisinha, e agora?ZECA- Tô las-las-cado me-meu! É só es-es-perar a mo-morte che-che-gar (SAI PARA A COZINHA).
Miguel- Espera Zeca!
ANINHA- (VINDO DOS QUARTOS) Príncipe!
MIGUEL- Oi Aninha! Digo, Ana Tesão.
ANINHA- Mim rumei toda pra esperar ocê.
MIGUEL- Você tá muito gata!
ANINHA- Ai brigada! Eu fico toda muncionada, é que eu nunca pensei na vida de encontrar um príncipe.
MIGUEL- (APROXIMANDO-SE) É, mais encontrou. Eu sou mesmo demais.
ANINHA- (RECUANDO) Mai ocê ama eu de verdade?
MIGUEL- Claro, que amo gatinha. E você me ama?
ANINHA- Amo muito demais eu fiquei toas das modernas pra você, virei Ana dos tesão, até deixei ocê beijar eu. Ocê que nunca mais escreveu carta nenhuma pra minha pessoa!
MIGUEL- É que faltou inspiração. Mas, eu queria uma prova do seu amor.
ANINHA- Prova? Mai amor num se prova, se sente!
MIGUEL- (APROXIMANDO-SE) Vem me dar um beijinho vem.
ANINHA- (RECUANDO) Príncipe ocê me arreispeita, me arreispeita que eu sou moça de famia.
MIGUEL- Você vai me dizer um não?
ANINHA- Mai vô. Que amo você, mai amo muito mais a minha pessoa. E ocê quer usar eu, e quem usa não ama.
MIGUEL- Mais claro que amo.
ANINHA- Ocê pára! Pára porque se não eu grito!
MIGUEL-(CADA VEZ MAIS PRÓXIMO) Deixa de papo, e vem logo me dar um beijo (AGARRA-A).
ANINHA- Mim soita, socorro! Socorro!
MIGUEL- Caiu na rede é peixe. (PEGA-A NOS BRAÇOS, VAI SAINDO PARA RUA, CARLINHOS ENTRA LENDO).
ANINHA- Socorro Carlinhos, ajuda eu.
CARLINHOS- O que é isso Miguel? (SOLTA O LIVRO).
MIGUEL- Sai da minha frente mané!
CARLINHOS- Solta ela, solta ela agora!
MIGUEL- Por quê?
CARLINHOS- Porque eu estou mandando. Tá surdo?
MIGUEL- Resolveu virar macho de repente?
CARLINHOS- Não se compara um homem pela sacanagem e sim pelo caráter. Solta ela!
MIGUEL- Tudo bem! (SOLTA ELA, QUE CAI NO CHÃO).
ANINHA- Aí!
MIGUEL- E aí meu irmão vai encarar?
CARLINHOS- (ENFRENTANDO-O) Eu que pergunto, vai encarar mané?
MIGUEL- (EMPURRANDO-O) Tá maluco?
CARLINHOS- (SOQUEANDO ELE) Esse é pela Aninha! E esse é por mim mesmo!
ANINHA- Ai, Jesus!
CARLINHOS- (PARA ANINHA) Tudo bem com você?
ANINHA- Tudo. Ai, ocê é o meu herói! (ENTRAM TODOS EXCERTO MANU QUE ESTÁ NA RUA).
DONA ESTELA- Mais que gritaria foi essa? (ENTRA COM OS CARTAZES DA CAMPANHA).
ZECA- (AJUDANDO MIGUEL A SE LEVANTAR) Mi-Miguel!
REBECA- O que aconteceu aqui?
ANINHA- Aconteceu que meu príncipe virou sapo.
CARLINHOS- O canalha do Miguel estava querendo forçar a barra com a Aninha.
LUCAS- Forçar a barra como? (MANU ENTRA, VINDO DA RUA).
ANINHA- Queria tirar os cabimento, fazer os enxirimento. Mai eu sou moça de famia.
MANU- Prima! (ABRAÇA-A) Ai eu tô roxa, roxa.
BIA- E eu que pensei que você já estava prontinha.
KELLY- É minha filha, hoje em dia homem só pensa em sacanagem.
DONA ESTELA- Ô Aninha desculpa, eu devia ter prestado mais atenção em você. E você em seu Miguel, que vergonha até carta escreveu pra enganar a pobrezinha.
ZECA- Mãe foi eu que es-es-es-crevi a car-car-carta.
ANINHA- Ocê?
ZECA- Ma-ma-mais foi pa-para ou-outra pessoa.
DONA ESTELA- Pra quem foi então?
MIGUEL- Foi pra Bia.
BIA- Pra mim? Aí que legal, eu já tô prontinha.
MIGUEL- E você dona Estela, antes de me julgar deveria prestar mais atenção nos seus filhos.
DONA ESTELA- Mais o que é que tem meus anjinhos.
MIGUEL- (IRÔNICO) Só pra começar, o meu amiguinho Zeca está com aids.
TODOS- O quê?
ZECA- Mãe eu po-pos-so ex-ex-plicar, eu es-es-tava doi-doi-dão não deu pra...
DONA ESTELA- (CORTANDO) Pare por favor, me poupe dos seus detalhes sórdidos. Eu sei muito bem como se pega aids, só pode ser coisa do demônio. Ai, ai, eu vou morrer!
LUCAS- Que vergonha Zeca! Mais pior mesmo, é a Manu, que saiu com a rua inteira, Manu vuco, vuco. E ainda estão dizendo que ela está grávida.
DONA ESTELA- (CAINDO NOVAMENTE) Ai, eu não agüento, eu não agüento. Eu vou morrer, eu vou morrer.
MANU- (NERVOSA) Ai eu tô roxa, roxa. Mãezinha, não é bem assim, eu não saí com todos... o Júnior por exemplo ele tinha mau-hálito.
DONA ESTELA- Filha, você não está grávida está?
MANU- Estou. Quer dizer, estava... eu abortei.
TODOS- O QUÊ?
MANU- Eu não sabia o que fazer, eu estava com medo, eu não queria estragar minha vida.
DONA ESTELA- Estragada já está não é minha filha? E o pai já sabe da besteira que você fez?
MANU- (CONFUSA) O pai... bem, o pai... o pai... eu, eu não sei quem é o pai.
TODOS- O quê?
DONA ESTELA- Ai meu pai! (CAINDO) Dessa eu não escapo, eu vou morrer. Rebeca minha filha querida...
MANU- (CORTANDO-A) Querida? A Rebeca também não é flor que se cheire. Ela fez tudo pra levar o namoradinho, que queria casar virgem, pra cama, e ainda traia o coitado com o Miguel.
CARLINHOS- (SURPRESO) Rebeca isso é verdade?
ANINHA- Miguel, ocê e a prima?
MIGUEL- Caiu na rede é peixe!
DONA ESTELA- Filha, você traia o Carlinhos?
REBECA- Traia sim, e com muito gosto. Porque eu gosto é de homem de verdade.
CARLINHOS- Você disse que me amava.
REBECA- Amor, que coisa mais brega!
CARLINHOS- Desculpe, mas se você acha que amar alguém, faze-la feliz, respeita-la é ser brega, brega está sendo você, o amor nunca saiu e nem nunca saíra de moda. Só com o amor poderemos ser felizes.
REBECA- Mulher melhore, você quer que eu seja franca? Assume nega, assume linda!
ANINHA- Tadinho.
CARLINHOS- Mulher gosta de homem cachorro mesmo não é? Basta você respeita-la um pouquinho que já é gay. Eu sou homem e não preciso provar pra ninguém. Eu sei o que eu sou e isso basta! (SAI).
ZECA- Lu-lu-Lucas a-a-apro-pro-veita e con-con-ta pra mãe que vo-você anda traindo a Ke-kelly.
DONA ESTELA- O quê? Meu filho, você está de casamento marcado!
KELLY- Sogrinha essa afirmação é fato. Já pensei até em me matar ou virar bandida, meu filho quase que pegou depressão.
MANU- Ai eu fiquei roxa, roxa. Eu sempre achei vocês tão felizes.
LUCAS- Não é pra menos Kelly, você procura briga por qualquer coisa.
KELLY- Você acha qualquer coisa Pedro Lucas Jorge Afonso e Silva, eu ser corna? Eu não nasci pra ser chifrada meu bem. Mas se eu pego essa safada, desgraçada, sem futuro, moleca...
BIA- (CORTANDO) Êpa, moleca é o escambau!
REBECA- O que você tem a ver com isso Bia?
BIA- Eu?... Ai não tem jeito, eu vou falar a verdade. Eu sou, a... a... a...
KELLY- A moleca que está saindo com o Lucas.
BIA- Moleca não!
DONA ESTELA- Bia você? (SURPRESA)
BIA- Aí eu tinha medo de morrer sem beijar na boca, Se eu soubesse que o Zeca gostava de mim, eu já estava prontinha... mas aí o Lucas apareceu...
KELLY- Eu mato essa sem vergonha! (ELA BATE EM BIA).
BIA- Socorro! (REBECA E MANU TENTAM SEPARA-LAS).
DONA ESTELA- Aí eu vou morrer! (VAI CAIR MAIS LUCAS AMPARA) Minha hora chegou!
KELLY- Você não tem vergonha na cara? Você tem apenas quatorze anos, sua moleca.
BIA Me solta Rebeca, me solta que eu vou calar essa... MALUCA!
KELLY- (PARA BARRIGA) Calma filhinho, nós vamos lavar nossa honra. Eu vou dar uma lição nessa moleca. (PARTE PARA BIA, TODOS TENTAM APARTAR, PORÉM SÓ PIORAM A SITUAÇÃO).
DONA ESTELA- (GRITA) Chega! (TODOS PARAM) A que ponto vocês chegaram. Só pode ser coisa do demônio!
Homem como o Carlinhos está em extinção, um homem que sabe respeitar e valorizar uma mulher! Como o Miguel e o Lucas tem por toda parte, só querem aventuras, só querem usar meninas como a Bia, a Rebeca e a Manu, meninas que não sabem se dar o próprio valor. E não valorizam nem mesmo a própria honra. E também como a Kelly, que acha que ter um filho é como brincar de boneca. E também muitas como a Aninha que são iludidas por qualquer cantada barata... eu já estou cheia de tanta sacanagem... (SAI PARA OS QUARTOS).
ZECA- Es-es-pera mãe! (SAI COM DONA ESTELA).
MIGUEL- Espera Lucas, com quem você vai ficar afinal?
LUCAS- Com nenhuma das duas, esse negócio de compromisso, de ser pai não é pra mim. Fui! (SAI PARA A RUA).
KELLY- Lucas e o casamento? Eu não estou acreditando, eu vou ser mãe solteira, é isso? (PAUSA) Está vendo filho seu pai nos abandonou. Que vida triste vamos ter. Bem, eu já fui humilhada o suficiente. Eu vou arrumar minhas coisas. Eu não fico mais um minuto nessa casa (SAI PARA OS QUARTOS).
MANU- Coitada! Ai, eu fico roxa, roxa! (SAI COM KELLY).
REBECA- Chega de baixo astral, vamos dá uma volta Miguel!
MIGUEL- Demorou. Caiu na rede é peixe. (SAEM).
BIA- Eu também, já tô prontinha, não tenho mais nada o que fazer aqui. (RETIRA O AVENTAL E SAI).
ANINHA- Aí Jesus! Que pena, os casamento já era amanhã. E os bolo? Vai extruir tudo. Até pecado. Será que o amor num existe, será que o amor acabou? Será que só existe nas histórinha. (VÊ O LIVRO DE CARLINHOS) Mai um livro?
CARLINHOS- (ENTRA VINDO DA RUA) Oi, eu vim pegar meu livro, (RECEBE O LIVRO DE ANINHA).
ANINHA- Brigada Carlinhos, mais uma vez, ocê salvou minha vida, e minha honra também. Deus me livre! Eu ei de casar virgem.
CARLINHOS- Você também quer casar virgem?
ANINHA- Claro. Eu sou moça de famia!
CARLINHOS- Você conhece as regrinhas do amor?
ANINHA- Mai como num adevia de conhecer. Nos dois primeiro mês celinho...
CARLINHOS- No terceiro, beijo de língua...
ANINHA- No quarto abraço apertado...
CARLINHOS- No quinto, uns amasso...
ANINHA- No sexto noivado...
AMBOS- No oitavo casamento (RIEM).
CARLINHOS- Você, você, você... é minha alma gêmea.
ANINHA- Ocê, ocê, ocê... é meu príncipe.
CARLINHOS- Então o amor existe! (DÃO-SE AS MÃOS) Se todos acreditassem mais no amor, o mundo seria outro.
ANINHA- Carlinhos!
CARLINHOS- Aninha!
ANINHA- Carlinhos!
CARLINHOS- Aninha! (SE BEIJAM DELICADAMENTE).
NARRADOR- Quantos jovens como os que vocês acabaram de conhecer, não existem a nossa volta? Muitos sem rumo, sem direção, muitos pressionados a ter uma ativa vida sexual. Contudo, não se apaga o fogo jogando gasolina, por isso não basta simplesmente distribuir camisinhas, é necessário educar para o amor, para o respeito, para a formação de uma família. Só assim resgataremos valores que ficaram no passado, mas tão necessário no nosso presente, pois a vida é um jogo onde ganhamos e perdemos porém, é preciso saber viver!
(DURANTE A NARRAÇÃO APARECE APENAS A VOZ DO NARRADOR. NO MOMENTO EM QUE ELE FALA OS ATORES ENTRAM UM A UM).
E A VIDA CONTINUA...
segunda-feira, 14 de junho de 2010
NOVA ESPERANÇA
PEÇA - NOVA ESPERANÇA!
livremente inspirado na obra´´a maisa agora é nossa`` de crispiniano neto.
(O PRIMEIRO MOMENTO DO ESPETÁCULO SE PASSA EM FORMA DE TEATRO INVISÍVEL. EM MEIO APLATÉIA SE ENCONTRA TRÊS ATORES, DEVIDAMENTE POSICIONADOS A PONTO DE SE MISTURAR COM OS DEMAIS E QUE PASSEM DESPERCEBIDOS. UM ATOR QUE DEVE ESTAR JÁ DESDE O INÍCIO DA CERIMONIA COMPONDO A MESA É CONVIDADO PELO RELATOR A TOMAR A PALAVRA, DANDO ASSIM INICIO AO ESPÉTACULO.).
ATOR1-boa noite! É com muito orgulho, que estou aqui hoje para falar um pouco sobre o que ainda significa a maisa pra mim. como também vim expor minha opinião e dizer o quanto eu acredito que a nossa comunidade possa virar cidade.
(OS ATORES DA PLATÉIA LEVANTAM-SE TODOS Há SEU TEMPO E SE OPÕE A QUEM ESTA Á FRENRE).
ATOR 2 - A maisa vai virar cidade?Mais que palhaçada é essa?
ATOR 3 - Vocês ficaram malucos? Isso é um absurdo!Eu sei que sonhar é bom, mais isso aí já está passando dos limites!
ATOR 4 - A maisa vai virar cidade, essa é boa! Vocês queiram me desculpar, mais eu tenho mais o que fazer do que ficar dando atenção a essas baboseiras.
ATOR 1 - Mais pessoal vamos ouvir as propostas, vamos entender o projeto, para depois tiramos nossas conclusões.
ATOR 2 - Mais isso não tem cabimento, primeiro pelo número de habitantes que é insuficiente, segundo a região é muito pequena. E além do que, ninguém sabe nem ao menos a quem pertence às casas da vila.
ATOR 3 - isso é invenção de gente desocupadas que não tem o que fazer.
ATOR 1 - Mais o que é isso? Como vocês podem ser tão pessimistas? A maisa é fruto de um sonho que ainda não morreu. A empresa em si, pode até ter falido, mais o sonho continua vivo dentro de cada um de nós. Afinal quem de vocês aqui presente não já se pegou relembrando o tempo passado em que a maisa prosperava e tudo ia bem. Tempo em que tinha emprego para todos. Ninguém pode negar que a maisa é um pedaço da nossa história que não pode ser apagado. Nem esquecido.
(OS ATORES DA PLATÉIA VÃO Á FRENTE E INICIAM UMA SÉRIA DISCUÇÃO, PODENDO).
ATÉ SER APARTADA POR ALGUÉM DA COMISSÃO ORGANIZADORA. EM SEGUIDA, TODOS NUM SÓ TEMPO, DÃO UM FORTE GRITO. A COMISSÃO AFASTA-SE, DANDO ESPAÇO AO ESPETÁCULO. OS ATORES QUE JÁ ESTÃO EM CENA ,PASSAM A ENCARAR A PLATÉIA COM UM OLHAR PERDIDO. DO FUNDO DO PALCO SURGE UMA PEQUENA PROCISSÃO COM GENTE QUE REPRESENTE´O POVÃO, AO SOM DA MUSÍCA ´´VIDA DE GADO- ZÉ RAMALHO``.)
TODOS - a semente ficou que ela germine para concretizar aquele sonho pelo qual tanto sonhamos.
ATOR 5 - A Maisa, vocês sabem,
Já foi símbolo do sucesso,
Âncora em tecnologia,
Moderna e mercadologia,
Cartão postal do progresso!
TODOS - Do sonho á realidade, maisa cidade!
ATOR 6 - Foi quem trouxe a Mossoró
A moderna irrigação,
Com as técnicas de Israel,
Com a ciência do Japão.
Foi nosso Éden exemplar,
Califórnia Potiguar,
Canaã do meu sertão!
TODOS - O povo todo em união pede a emancipação.
ATOR 7 - Melão, manga e acerola,
Sapota e nectarina
Caju precoce e papaya,
Atémoia e tangerina,
Indústria, gado e abelha...
A Maisa era a centelha
Da nova luz nordestina!
TODOS - Vamos dar-nos as mãos, e lutar pela emancipação!
ATOR 8 - Mas apesar da Maisa
Ser um negócio rentável
De gerar empregos em
Volume considerável
Quebrou, faliu sem apelo.
Por adotar um modelo
Que não era sustentável!
TODOS - Eu luto com orgulho: Para maisa ser cidade no futuro!
ATOR 1 - A má administração
E excesso de ambição
Foram os males da empresa
Dependência de mercado
Crédito sem necessidade
A Maisa já se via
Que ia quebrar um dia
TODOS - O sonho não pode para! A maisa cidade será!
ATOR 2 - Quando se acabou o glamour,
Holofotes se apagaram,
Ressecam os canduítes,
As porteiras se fecharam
Empregados despediram os
Chefes logo sumiram
E os sem terra ocuparam.
TODOS - A maisa ressurgirá, uma grande cidade será.
ATOR 3 - Como Ocorre em toda luta
Dos sem terra do país
Teve polícia e jagunço
Teve ordem de juiz
Tirando enxadas, mobílias,
Expulsando mil famílias
Do sonho de ser feliz!
TODOS - Queremos mudança, maisa cidade uma nova esperança.
ATOR 5 - Mas as famílias ficaram
Além da cerca, na estrada,
Sob os barracos de plástico,
Tomando água pesada.
Esperando, todas mil.
Um cantinho de Brasil
Pra ter trabalho e morada.
TODOS - A voz do povo é a voz da razão: a maisa pede a emancipação.
ATOR 6 - Foi aí que veio Lula,
Novo chefe da nação
E deu logo ordem pra o incra
Estudar bem o lugar,
Desapropriar a terra
E as famílias assentar.
TODOS - Do sonho á realidade, maisa cidade!
ATOR 7 - São vinte mil hectares
Com mil peões assentados
A maisa agora é nossa
É aquele Brasil decente
Que foi o sonho da gente
Dando fruto em nossa roça.
TODOS - O sonho não pode para! A maisa cidade será!
ATOR 8 - O sonho continua embora enfraquecido. A maisa cresce a cada dia e hoje está de braços dados e mãos unidas. Viemos propor o inicio de uma nova fase, uma nova maisa, um novo sonho, uma nova esperança.
(AO SOM DA MÚSICA ESPERANÇA DE DANIEL)
ATOR 1 - Quem somos? Ora, somos maisenses. Nós fazemos parte de uma gente que acreditou numa idéia, uma gente que presenciou a alegria de milagre do sonho que virou realidade.
ATOR 2 - Gente que deu seu sangue pra uma empresa crescer. E gente que também teve a triste oportunidade de presenciar tudo desmoronar e aquele lindo sonho se tornar um triste e sombrio pesadelo.
ATOR 3 - Somos pessoas que tem a lembrança de uma infância feliz, de uma juventude viva, lugar chamado maisa.
ATOR 4 - Somos pessoas do interior, que nos orgulhamos por fazer parte de uma estória, cheia de lutas e vitórias, derrotas e conquistas.
ATOR 5 - Somos pessoas que não tememos a luta.
ATOR 6 - Que acreditamos na força de um objetivo
ATOR 7 - Confesso porém que essa gente guerreira não é Perfeita que temos lá nossos defeitos.
ATOR 8 - E temos muito ainda que mudar.
ATOR 1 - Uma gente que hoje abraça a idéia de que a maisa será uma cidade e que não vamos sossegar enquanto nosso intento não se concretizar.
TODOS - O povo todo em união pede a emancipação.
TODOS - O sonho não pode para! A maisa cidade será!
TODOS - Do sonho á realidade, maisa cidade!
A VIDA CONTINUA...
livremente inspirado na obra´´a maisa agora é nossa`` de crispiniano neto.
(O PRIMEIRO MOMENTO DO ESPETÁCULO SE PASSA EM FORMA DE TEATRO INVISÍVEL. EM MEIO APLATÉIA SE ENCONTRA TRÊS ATORES, DEVIDAMENTE POSICIONADOS A PONTO DE SE MISTURAR COM OS DEMAIS E QUE PASSEM DESPERCEBIDOS. UM ATOR QUE DEVE ESTAR JÁ DESDE O INÍCIO DA CERIMONIA COMPONDO A MESA É CONVIDADO PELO RELATOR A TOMAR A PALAVRA, DANDO ASSIM INICIO AO ESPÉTACULO.).
ATOR1-boa noite! É com muito orgulho, que estou aqui hoje para falar um pouco sobre o que ainda significa a maisa pra mim. como também vim expor minha opinião e dizer o quanto eu acredito que a nossa comunidade possa virar cidade.
(OS ATORES DA PLATÉIA LEVANTAM-SE TODOS Há SEU TEMPO E SE OPÕE A QUEM ESTA Á FRENRE).
ATOR 2 - A maisa vai virar cidade?Mais que palhaçada é essa?
ATOR 3 - Vocês ficaram malucos? Isso é um absurdo!Eu sei que sonhar é bom, mais isso aí já está passando dos limites!
ATOR 4 - A maisa vai virar cidade, essa é boa! Vocês queiram me desculpar, mais eu tenho mais o que fazer do que ficar dando atenção a essas baboseiras.
ATOR 1 - Mais pessoal vamos ouvir as propostas, vamos entender o projeto, para depois tiramos nossas conclusões.
ATOR 2 - Mais isso não tem cabimento, primeiro pelo número de habitantes que é insuficiente, segundo a região é muito pequena. E além do que, ninguém sabe nem ao menos a quem pertence às casas da vila.
ATOR 3 - isso é invenção de gente desocupadas que não tem o que fazer.
ATOR 1 - Mais o que é isso? Como vocês podem ser tão pessimistas? A maisa é fruto de um sonho que ainda não morreu. A empresa em si, pode até ter falido, mais o sonho continua vivo dentro de cada um de nós. Afinal quem de vocês aqui presente não já se pegou relembrando o tempo passado em que a maisa prosperava e tudo ia bem. Tempo em que tinha emprego para todos. Ninguém pode negar que a maisa é um pedaço da nossa história que não pode ser apagado. Nem esquecido.
(OS ATORES DA PLATÉIA VÃO Á FRENTE E INICIAM UMA SÉRIA DISCUÇÃO, PODENDO).
ATÉ SER APARTADA POR ALGUÉM DA COMISSÃO ORGANIZADORA. EM SEGUIDA, TODOS NUM SÓ TEMPO, DÃO UM FORTE GRITO. A COMISSÃO AFASTA-SE, DANDO ESPAÇO AO ESPETÁCULO. OS ATORES QUE JÁ ESTÃO EM CENA ,PASSAM A ENCARAR A PLATÉIA COM UM OLHAR PERDIDO. DO FUNDO DO PALCO SURGE UMA PEQUENA PROCISSÃO COM GENTE QUE REPRESENTE´O POVÃO, AO SOM DA MUSÍCA ´´VIDA DE GADO- ZÉ RAMALHO``.)
TODOS - a semente ficou que ela germine para concretizar aquele sonho pelo qual tanto sonhamos.
ATOR 5 - A Maisa, vocês sabem,
Já foi símbolo do sucesso,
Âncora em tecnologia,
Moderna e mercadologia,
Cartão postal do progresso!
TODOS - Do sonho á realidade, maisa cidade!
ATOR 6 - Foi quem trouxe a Mossoró
A moderna irrigação,
Com as técnicas de Israel,
Com a ciência do Japão.
Foi nosso Éden exemplar,
Califórnia Potiguar,
Canaã do meu sertão!
TODOS - O povo todo em união pede a emancipação.
ATOR 7 - Melão, manga e acerola,
Sapota e nectarina
Caju precoce e papaya,
Atémoia e tangerina,
Indústria, gado e abelha...
A Maisa era a centelha
Da nova luz nordestina!
TODOS - Vamos dar-nos as mãos, e lutar pela emancipação!
ATOR 8 - Mas apesar da Maisa
Ser um negócio rentável
De gerar empregos em
Volume considerável
Quebrou, faliu sem apelo.
Por adotar um modelo
Que não era sustentável!
TODOS - Eu luto com orgulho: Para maisa ser cidade no futuro!
ATOR 1 - A má administração
E excesso de ambição
Foram os males da empresa
Dependência de mercado
Crédito sem necessidade
A Maisa já se via
Que ia quebrar um dia
TODOS - O sonho não pode para! A maisa cidade será!
ATOR 2 - Quando se acabou o glamour,
Holofotes se apagaram,
Ressecam os canduítes,
As porteiras se fecharam
Empregados despediram os
Chefes logo sumiram
E os sem terra ocuparam.
TODOS - A maisa ressurgirá, uma grande cidade será.
ATOR 3 - Como Ocorre em toda luta
Dos sem terra do país
Teve polícia e jagunço
Teve ordem de juiz
Tirando enxadas, mobílias,
Expulsando mil famílias
Do sonho de ser feliz!
TODOS - Queremos mudança, maisa cidade uma nova esperança.
ATOR 5 - Mas as famílias ficaram
Além da cerca, na estrada,
Sob os barracos de plástico,
Tomando água pesada.
Esperando, todas mil.
Um cantinho de Brasil
Pra ter trabalho e morada.
TODOS - A voz do povo é a voz da razão: a maisa pede a emancipação.
ATOR 6 - Foi aí que veio Lula,
Novo chefe da nação
E deu logo ordem pra o incra
Estudar bem o lugar,
Desapropriar a terra
E as famílias assentar.
TODOS - Do sonho á realidade, maisa cidade!
ATOR 7 - São vinte mil hectares
Com mil peões assentados
A maisa agora é nossa
É aquele Brasil decente
Que foi o sonho da gente
Dando fruto em nossa roça.
TODOS - O sonho não pode para! A maisa cidade será!
ATOR 8 - O sonho continua embora enfraquecido. A maisa cresce a cada dia e hoje está de braços dados e mãos unidas. Viemos propor o inicio de uma nova fase, uma nova maisa, um novo sonho, uma nova esperança.
(AO SOM DA MÚSICA ESPERANÇA DE DANIEL)
ATOR 1 - Quem somos? Ora, somos maisenses. Nós fazemos parte de uma gente que acreditou numa idéia, uma gente que presenciou a alegria de milagre do sonho que virou realidade.
ATOR 2 - Gente que deu seu sangue pra uma empresa crescer. E gente que também teve a triste oportunidade de presenciar tudo desmoronar e aquele lindo sonho se tornar um triste e sombrio pesadelo.
ATOR 3 - Somos pessoas que tem a lembrança de uma infância feliz, de uma juventude viva, lugar chamado maisa.
ATOR 4 - Somos pessoas do interior, que nos orgulhamos por fazer parte de uma estória, cheia de lutas e vitórias, derrotas e conquistas.
ATOR 5 - Somos pessoas que não tememos a luta.
ATOR 6 - Que acreditamos na força de um objetivo
ATOR 7 - Confesso porém que essa gente guerreira não é Perfeita que temos lá nossos defeitos.
ATOR 8 - E temos muito ainda que mudar.
ATOR 1 - Uma gente que hoje abraça a idéia de que a maisa será uma cidade e que não vamos sossegar enquanto nosso intento não se concretizar.
TODOS - O povo todo em união pede a emancipação.
TODOS - O sonho não pode para! A maisa cidade será!
TODOS - Do sonho á realidade, maisa cidade!
A VIDA CONTINUA...
Furdunço no Sertão
Peça – Furdunço no Sertão
Texto e Direção
Denílson David
PERSONAGENS
GENOVEVA - A NOIVA
CHIQUIM - O NOIVO
ESPERTUNIA - MÂE DA NOIVA
ZÉ-IRMÂO DA NOIVA
RAIMUNDONA - A GRÁVIDA
ATO ÚNICO
ABREM – SE AS CORTINAS
GENOVEVA – (ENTRA COM UMA VASSOURA NA MÃO) Ô minha nossa senhora das muié limpa e cheirosa, que caisa mais suija! (VARRENDO)Eu, levo o tempo cuidando na arrumação dessa casa. Ô vida ,ô vida...já, já mainha chega e se ela pega essa bagunça ela mete o cacete. (VARRE E ARRUMA TUDO APRESSADAMENTE).
ESPERTUNIA – (DE DENTRO) Ô Genoveva! Genoveva! Cadê tu peste? Aparece traste!(ENTRA CORRENDO).
GENOVEVA – Ôche mainha que agonia é essa? Num grita que eu fico toda tremendo!
ESPERTUNIA – Deixa de frescura sua maldita! Sabe o que eu fiquei sabendo agorinha na rua, sabe?
GENOVEVA – Sei mainha, sei!
ESPERTUNIA – Como tu sabe, se eu ainda não contei peste?
GENOVEVA – A mainha se eu dizesse que num sabia a senhora ia brigar.
ESPERTUNIA – Ai cristo, isso não é uma filha, isso é um castigo. Mai coma eu ia dizendo, o seu tio, e a sua tia, bateram as botas.
GENOVEVA – O quê? Não, não, não! Ai meu Deus! (CHORA DESESPERADA)
ESPERTUNIA – Ô Genoveva, num precisa disso mia fia! Tu deixa de besteira, se não eu te parto a cara!
GENOVEVA – (CONTENDO O CHORO) E morreu de que mainha?
ESPERTUNIA – De um acidente de carroça.
GENOVEVA – Carroça?
ESPERTUNIA – Eles tava nas pistas de carroça, ai na hora que iam atravessar vei uma moto, passou por cima do jumento, matou o jumento.
GENOVEVA – Ôche, passou por cima do jumento e quem morreu foi o tio e a tia?
ESPERTUNIA – Morreram de pena do jumento, coisa de gente besta mesmo, viu!
GENOVEVA – Num fala assim mainha! Mai e o meu primo Chiquim, como é que tá?
ESPERTUNIA – O traste mandou dizer por seu neném do mercado que tá vindo passar uns dias aqui.
GENOVEVA – Num diga mainha.
ESPERTUNIA – Baixe o fogo sua assanhada.
GENOVEVA – Ôche mainha, pintiei o cabelo onti.
ESPERTUNIA – Olhe aqui Genoveva, tu num se faça de engraçada, tu sabe do que eu tô falando, por isso eu não quero que você fique com gracinha pro lado do peste do Chiquim, tu tá me ouvindo?
GENOVEVA – Tô sim, mainha. Tô sim.
ESPERTUNIA – Agora vai já pra dentro cuidar do almoço. (EMPURRA-A) Cumigo é assim escreveu num leu o pau comeu. Minha fia Genoveva tem 25 cinco anos e ate hoje nunca nem beijou nas bocas, isso só depois de casada eu sei como anda as coisas se essa peste fosse solta já tinha uns quinze fi. Essa bicha não presta.
ZÉ – (ENTRA EMBREAGADO) Eu vou beber pra esquecer dos meu probrema.
ESPERTUNIA – Mais tu já bebeu de novo, peste?
ZÉ – Só um poquim, mainha sabia que ôce é mia mãe prifirida?
ESPERTUNIA – Eu já disse que num queria ver você bebendo, e que num vou sustentar fi vagabundo não tá me entendo?
ZÉ – Mainha eu só bibi um golim.
ESPERTUNIA – Que golim o que, o bafo tá aqui.
ZÉ – O bafo que tá aí é o seu, num é o meu não.
ESPERTUNIA – Olhe aqui, tu num faça piadinha com minha cara não, (PUXANDO PELA ORELHA) tá me ouvindo?
ZÉ – Tô mainha, tô!
ESPERTUNIA – (VAI SAINDO)
ZÉ – Mainha é toda das valentona assim, mai de verdade ela num mata nem uma vaca.
ESPERTUNIA – (VOLTANDO) E tem mais, pela última vez eu vou avisar: ou tu cria vergonha e pára de vagabundagem ou eu ôcê no olho das rua. (SAI).
ZÉ – Mainha é uma gracinha (RIR, OUVI-SE PALMAS) Ôche essas palmas só pode ser cobrança de mainha. Já vai, (CAI) Eu ia caindo, (LEVANTA-SE E ABRE A PORTA) Primo Chiquim com vai ôce?!
CHIQUIM – Diga Zé tudo bom, só?
ZÉ – Mai entra Chiquim que a casa é toda sua
CHIQUIM – Ôce tá bebo Zé?
ZÉ – Eu num tô bebo não! Fica aí, que eu vou chamar a mãe ,pra mode ela vê ôce.
GENOVEVA – (ENTRANDO) Mainha... (VER CHIQUIM) Chiquim!
CHIQUIM – Genovevinha! Ixe Maria, e tu vai ficar aí parada, doida? Num vai dar nenhum abraço no seu primo quirido?
GENOVEVA – (CORRE PARA ABRAÇA-LO) Chiquim é tu memo?
CHIQUIM – Sou eu sim Genoveva, mai tu tá cada vez mai linda.
GENOVEVA – Num fala essas coisas que eu fico com vergonha! Sinto muito pelo que aconteceu.
CHIQUIM – Nem me fala nisso, que chega eu fico triste. Mai cadê a tia Espertunia? Cadê a veia?
GENOVEVA – Tu num fala assim de mainha, porque se ela esculta... Ôce sabe que ela é dessas que mata a cobra e mostra o pau.
ESPERTUNIA – (DE DENTRO) Genoveva, Genoveva, quem é que tá ai?
GENOVEVA – Num é ninguém não! É o Chiquim!
ESPERTUNIA – (ENTRANDO) Mai o peste já chegou?
CHIQUIM – Cheguei sim!
ESPERTUNIA – Como é que tu tá desgraça?
CHIQUIM – Tô em pé!
ESPERTUNIA – Tu num brinca comigo traste! (BATE NELE)
CHIQUIM – Arre, desculpa eu tia.
ESPERTUNIA – Senta aí!
CHIQUIM – Num quero não!
ESPERTUNIA – Senta aí, ou tu senta ou eu te parto a cara!
CHIQUIM – Eta que brincadeira besta, (PAUSA) Eu queria era brincar! Vamo brincar genovevinha?
GENOVEVA – Vamo sim, posso mainha?
ESPERTUNIA – (PARA CHIQUIM) Ôce chamou mia fia de quê, desgraça?
CHIQUIM – (AMEDRONTADO) Genovevinha...
ESPERTUNIA – Que essa seja a última vez, nada de intimidade com mia fia, vice?
CHIQUIM – Tô vissando, tô vissando!
ESPERTUNIA – Agora podem ir, mai eu tô de oi!
GENOVEVA – Ôce nem me pega, (SAEM CORRENDO).
ESPERTUNIA – Dois cavalão desse brincando, tem ate o que ver!
GENOVEVA – (VOLTA CORRENDO) Nem me pega!
CHIQUIM – Ah! Mai tu vai ver como eu pego. (CORREM EM VOLTA DE ESPERTUNIA, BARROAM NELA E ELA DESMAIA).
CHIQUIM – Genoveva! Danou-se tudo, venha aqui rápido!
GENOVEVA – (VÊ SUA MÃE CAÍDA) Mia nossa senhora dos miserável, ôce ficou doido Chiquim?
CHIQUIM – Virge santíssima, ela morreu bateu as bota?
GENOVEVA – Morreu não Chiquim, morreu não mai quando ela acordar quem vai morrer é ôce.
CHIQUIM – E agora o que agente faz?
GENOVEVA – Nós primeiro tem que acordar ela, adespois nós acalma a fera.
CHIQUIM – Mai como, Genoveva?
GENOVEVA – Tô pensando.
CHIQUIM – Já sei, aqui tem veneno de rato.
GENOVEVA – Acho que tem por quê?
CHIQUIM – É só ela dá uma cherada. Ou ela acorda doidona ou morre de vez!
GENOVEVA – Será?
CHIQUIM – Ou vai ou racha!
GENOVEVA – Então eu vou pegar. (VAI SAINDO, PÁRA AFLITA DE PERNAS ABERTAS)
GENOVEVA – Ai, ai, Chiquim, Chiquim me ajuda. (PARALISADA).
CHIQUIM – O que foi Genovevinha o que está acontecendo?
GENOVEVA – Uma, uma, uma barata tá subindo no meu pé, socorro!
CHIQUIM – Calma Genoveva, eu vou te ajudar, (ENTRANDO DEBAIXO DE SUA SAIA).
GENOVEVA – Mata a barata Chiquim, mata!
CHIQUIM – Espera Genoveva eu tô procurando.
GENOVEVA – Tá subindo, socorro Chiquim!
CHIQUIM – Calma Genoveva, eu já vou pegar a barata, não se mexe!
GENOVEVA – Vai logo Chiquim, ai tá subindo! (ESPERTUNIA ESTÁ ACORDANDO).
GENOVEVA – (VÊ ESPERTUNIA SE APROXIMANDO FURIOSA) chiquim tá bom, a barata já foi, chega, chega, chega!
CHIQUIM – Genovevinha ôce...
ESPERTUNIA – (LEVANTA CHIQUIM PELA CAMISA) Tá fazendo o quê com mia fia? E que nigocio é esse de barata?
CHIQUIM – (AMEDRONTADO) Foi a Genoveva quem mandou eu pegar na barata dela!
GENOVEVA – Oxênte Chiquim!
ESPERTUNIA – É o quê? Sua enxerida, tu anda mandando os outros pegar nas tuas coisas! (BATE NELA)
GENOVEVA – Mainha, ele mandou eu pegar o veneno... Ai a barata....
ESPERTUNIA – Veneno...? e pra que esse veneno?
GENOVEVA – Ôche, era pra senhora cheirar.
ESPERTUNIA – (PARA CHIQUIM) Tu queria me matar, desgraça? Tu num tem medo de morrer não?
CHIQUIM – Ô tia, num mata eu não! Num suja tuas mão com eu não. Se tu matar eu... eu...
ESPERTURNIA – Tu o quê? Fala peste!
CHIQUIM – Se tu matar eu...eu.. morro.
ESPERTUNIA – Tu num ia dizer isso não infeliz, tu ia dizer que se eu matasse tu, Genoveva ia ter um fi sem pai, num era?
CHIQUIM – De onde? Mai minha nossa, tu endoidou de vez tá caducando é?
GENOVEVA – Mainha num assucedou nada eu juro!
ESPERTUNIA – Cala boca, rolinha doida! E tu Chiquim de uma mulesta, buliu com mia fia vai ter que casar.
CHIQUIM/ GENOVEVA – O quê?
CHIQUIM – Mai tia e a Raimundona?
ESPERTUNIA – Que Raimundona? Eu é que num vou esperar nove mês, pra mode saber o resultado. Casa sim e adespois de amanhã.
CHIQUIM/ GENOVEVA – O quê?
GENOVEVA – Mai já mainha?!
CHIQUIM – Oxênte pra quê tanta pressa?
ESPERTUNIA – Pra tu num ter tempo de fugir desgraça. (SAI)
GENOVEVA – (RIR) É... Mai eu bem que vou gustar de casar com você, vice!
CHIQUIM – Eu também ate que ia, se num fosse...
ESPERTUNIA – (ENTRANDO) Genoveva Peste.
ZÉ – (ENTRANDO) E aí Chiquim tá gostando primo?
CHIQUIM – Tô nada Zé, a tia quer que eu casa com a Genoveva sem ter feito nada com ela.
ZÉ – Mai casa primo, adepois ôce faz. mia irmã é feinha mai da pra quebar o gai.
CHIQUIM – Mai de querer eu atè que queria, mai é que mode eu num posso.
ZÉ – Mai o jeito é se conformar, pó mode que despois que mainha põem uma coisa na cabeça da sangue na canela e a nega num desiste. (SAI)
CHIQUIM – Mai eu tenho que fazer alguma coisa, mai o quê? E agora? Se correr o bicho pega se correr o bicho come! (SAI)
UM DIA DEPOIS
ESPERTUNIA – (ENTRANDO) Mai é hoje, é hoje que o tampo desencalhar. Mai eu bem que sabia que era só da espaço que a bicha ia dar... dar pa ruim.
ZÉ – (ENTRA BEBENDO) Óia, mai onde tá mia mãe prifirida!
ESPERTUNIA – Mai tu, já tá bebendo de novo fi do cão?
ZÉ – Quem tá bebendo aqui, mãe? Eu? Quem disse essa mintira.
ESPERTUNIA – Ninguém disse nada, eu tô vendo troço.
ZÉ – Vendo o quê?
ESPERTUNIA – Essa garrafa ai atraz. Vem cá. (PEGANDO-O PELA ORELHA). Oia aqui seu bicho imundo, hoje tua irmã vai casar, agora vai botar uma roupa de sair e volta já pra cerimônia. (JOGA ELE PRA DENTRO).
CHIQUIM – Já tô indo, calma, calma.
ESPERTUNIA – Ai agora é só esperar.
CHIQUIM – Deus que a me perdoe, vice, mai eu me livro desse casório se o tampo dessa veia morrer. (PEGA UM PAU). Oi titia!
ESPERTUNIA – O que é que tu quer? (DURANTE A CENA ELE TENTA A TODO CUSTO METER O PAU NA CABEÇA DE ESPERTUNIA, QUE SEMPRE ACABA ESCAPANDO).
CHIQUIM – Quero conversar um cadim com ôce.
ESPERTUNIA – Desembucha, (ENQUANTO ISSO ELA ARRUMA A MESA DO ALTAR)
CHIQUIM – Mai né mior, nós deixar esse casório pra outro dia? Ou já se viu casar sem bolo, bebida e doce.
ESPERTUNIA – Preocupe não, eu fiz tudo cumprei as cachaça, uma buchada das boa...
CHIQUIM – Mai e os convidado?
ESPERTUNIA – Mai tu tá cego? Num tá vendo esse tantão de gente, não? (APONTANDO PARA O PÚBLICO)
CHIQUIM – E as noiva, aposto que ela num tem nem vestido.
ESPERTUNIA – E num tem mermo.
CHIQUIM – Pois então.
ESPERTUNIA – Mai eu dei uns ponto no vestido que eu casei com o finado Geremias e ficou uma beleza pra ela.
CHIQUIM – Mai ai que veia nojenta. (ÚLTIMA INVESTIDA COM O PAU).
ESPERTUNIA – (VIRA-SE A TEMPO, PEGANDO-O EM FLAGRANTE). Mai tu queria me matar peste?
CHIQUIM – Da onde tia! Queria nada! Tava só de brincadeira.
ESPERTUNIA – Tu sabe muito bem que eu tenho nojo de brincadeira, eu já disse que o casamento vai ser hoje e num tem cristão desse mundão de meu Deus que me impida. (GENOVEVA VESTIDA DE NOIVA ENTRA CORRENDO).
GENOVEVA – Chegui, tô bunita Chiquim?
CHIQUIM – Nunca vi um bicho tão bunito! Em toda mia vida.
ESPERTUNIA – Bora começar o casório?
GENOVEVA – Oxênte mainha, mai cadê o padre?
ESPERTUNIA – Cruz credo, eu esqueci do padre!
CHIQUIM – Só pode ser milagre, vamo deixar pra outro dia, pra outro mês, pra outro ano, pra outra vida!
ESPERTUNIA – Mai nem que a vaca tuça.
GENOVEVA – Mai como é que nois vamo casar?
ESPERTUNIA – Vou chamar o peste do seu irmão! (SAI)
GENOVEVA – Ai, mai eu tô feliz demais da conta! E ôce Chiquim o que tá sentido?
CHIQUIM – Eu tô é com medo Genovevinha.
ESPERTUNIA – (ENTRANDO TRAZENDO O ZÉ) Pronto! Tá qui o Zé ele vai fazer o casamento.
GENOVEVA/ CHIQUIM – O quê?
GENOVEVA – Mai mainha o Zé num sabe nem quem é Deus, quanto mais casar os fio de Deus.
ZÉ – Mai ora se num sei Deus é o pai de todo mundo.
ESPERTUNIA – Zé é só dizer tudo que eu mandei. Agora vai!
ZÉ – Em nome do pai, do fi, do ti, da mãe, da vó e do vô.
RAIMUNDONA – (VINDO DO PÚBLICO)Mai que putaria é essa? Seu cabra safado! Fi da mãe filhote de cruz credo o que é que tu tá fazendo? (PARA CHIQUIM).
CHIQUIM – Ra- ra- Raimundona!
GENOVEVA – Mai quem é ela?
RAIMUNDONA – Eu é que pergunto quem é essa pistoleira, macacada de branco?
ESPERTUNIA – Quem é esse diabo? Tu conhece Chiquim?
CHIQUIM – Conheço sim! Ela é Raimundona, por causa dela que eu num queria casar com a Genoveva.
ESPERTUNIA – Aí queria fugir e deixar mia fia barriguda num era?
RAIMUNDONA – Come é que é? Tu vai casar com essa bicha imunda?
GENOVEVA – Vai sim! (AGARRA CHIQUIM). E eu num sou bicho, sua barriguda e tu nem foi convidada, e tá pra nascer quem tome Chiquim de eu.
RAIMUNDONA – Tu vai casar e deixar este peste nascer sem pai?
ESPERTUNIA – Fia vai ali no banheiro, senta na privada faz coco, da descarga e pronto! Tá livre.
RAIMUNDONA – Tu tá pensando que isso aqui é merda é fia? Mais né não, é fi desse homem, (PARA CHIQUIM) desse cachorro da mulesta, desse sem vergonha!
ZÉ – Vai ter casório ou num vai?
ESPERTUNIA – Tu fica calado, e tu (RAIMUNDONA) Vai embora enquanto é tempo.
CHIQUIM – Raimundona vai embora, num cumprica as coisa se tu ficar aqui, essa doida mata eu e tu e adespois bebe o sangue.
RAIMUNDONA – Eu vou, mai tu vem com eu. (PUXA ELE POR UM BRAÇO).
GENOVEVA – (PUXA PELO OUTRO) Ah, mai num vai mermo!
RAIMUNDONA – Ah, mai vai sim!
GENOVEVA – Ah mai num vai não.
ESPERTUNIA – Chega! Eu num quero furdunço no meu sertão. Eu já sei o que fazer, a peste da Genoveva casa com a peste do Chiquim e esse bucho fofo casa com o cachaceiro do Zé.
CHIQUIM – Mai que furdunço é esse, e meu fi?
ZÉ – Ôce dá de comer a ele.
ESPERTUNIA – Tu vai ver o menino todo santo dia, mai vai ter que casar com a peste da mia fia.
RAIMUNDONA – Se meu fi vai ter um pai eu ate que aceito.
CHIQUIM - Ah, genoveva agora podemos casar assucegado!!!
ESPERTUNIA - Ah, chiquim até parece sonho!
ESPERTUNIA – E quem vai fazer o casório agora É eu... Em nome do pai... Vocês vão se casar, mas se brigar, se trair, se tiver safadeza, cachorrada eu passo a foice, entenderam? (FAZEM SINAL QUE SIM).Raimundona Camburão do Bucho Grande, aceita Zé Vagabundo como teu esposo? Pra cuidar do teu moleque e te dar vergonha?
RAIMUNDONA – É o jeito!
ESPERTUNIA – E tu imundo?
ZÉ – Aceito muito feliz!
ESPERTUNIA - Genoveva Pitomba Butique da Fonseca da Canela de Macaco, aceita Chiquim Francisco da Rocha da idade da Pedra Lascada com seu marido? Pra lidar de comer e lhe sustentar?
GENOVEVA – Aceito.
ESPERTUNIA – E tu peste?
CHIQUIM – Eu também aceito!
ESPERTUNIA – Agora chega de furdunço, pode pegar os trapos das noiva porque a festa vai começar! Pegue seu pá gente feia e comecem a dançar cão dos inferno.
E A VIDA CONTINUA...
Texto e Direção
Denílson David
PERSONAGENS
GENOVEVA - A NOIVA
CHIQUIM - O NOIVO
ESPERTUNIA - MÂE DA NOIVA
ZÉ-IRMÂO DA NOIVA
RAIMUNDONA - A GRÁVIDA
ATO ÚNICO
ABREM – SE AS CORTINAS
GENOVEVA – (ENTRA COM UMA VASSOURA NA MÃO) Ô minha nossa senhora das muié limpa e cheirosa, que caisa mais suija! (VARRENDO)Eu, levo o tempo cuidando na arrumação dessa casa. Ô vida ,ô vida...já, já mainha chega e se ela pega essa bagunça ela mete o cacete. (VARRE E ARRUMA TUDO APRESSADAMENTE).
ESPERTUNIA – (DE DENTRO) Ô Genoveva! Genoveva! Cadê tu peste? Aparece traste!(ENTRA CORRENDO).
GENOVEVA – Ôche mainha que agonia é essa? Num grita que eu fico toda tremendo!
ESPERTUNIA – Deixa de frescura sua maldita! Sabe o que eu fiquei sabendo agorinha na rua, sabe?
GENOVEVA – Sei mainha, sei!
ESPERTUNIA – Como tu sabe, se eu ainda não contei peste?
GENOVEVA – A mainha se eu dizesse que num sabia a senhora ia brigar.
ESPERTUNIA – Ai cristo, isso não é uma filha, isso é um castigo. Mai coma eu ia dizendo, o seu tio, e a sua tia, bateram as botas.
GENOVEVA – O quê? Não, não, não! Ai meu Deus! (CHORA DESESPERADA)
ESPERTUNIA – Ô Genoveva, num precisa disso mia fia! Tu deixa de besteira, se não eu te parto a cara!
GENOVEVA – (CONTENDO O CHORO) E morreu de que mainha?
ESPERTUNIA – De um acidente de carroça.
GENOVEVA – Carroça?
ESPERTUNIA – Eles tava nas pistas de carroça, ai na hora que iam atravessar vei uma moto, passou por cima do jumento, matou o jumento.
GENOVEVA – Ôche, passou por cima do jumento e quem morreu foi o tio e a tia?
ESPERTUNIA – Morreram de pena do jumento, coisa de gente besta mesmo, viu!
GENOVEVA – Num fala assim mainha! Mai e o meu primo Chiquim, como é que tá?
ESPERTUNIA – O traste mandou dizer por seu neném do mercado que tá vindo passar uns dias aqui.
GENOVEVA – Num diga mainha.
ESPERTUNIA – Baixe o fogo sua assanhada.
GENOVEVA – Ôche mainha, pintiei o cabelo onti.
ESPERTUNIA – Olhe aqui Genoveva, tu num se faça de engraçada, tu sabe do que eu tô falando, por isso eu não quero que você fique com gracinha pro lado do peste do Chiquim, tu tá me ouvindo?
GENOVEVA – Tô sim, mainha. Tô sim.
ESPERTUNIA – Agora vai já pra dentro cuidar do almoço. (EMPURRA-A) Cumigo é assim escreveu num leu o pau comeu. Minha fia Genoveva tem 25 cinco anos e ate hoje nunca nem beijou nas bocas, isso só depois de casada eu sei como anda as coisas se essa peste fosse solta já tinha uns quinze fi. Essa bicha não presta.
ZÉ – (ENTRA EMBREAGADO) Eu vou beber pra esquecer dos meu probrema.
ESPERTUNIA – Mais tu já bebeu de novo, peste?
ZÉ – Só um poquim, mainha sabia que ôce é mia mãe prifirida?
ESPERTUNIA – Eu já disse que num queria ver você bebendo, e que num vou sustentar fi vagabundo não tá me entendo?
ZÉ – Mainha eu só bibi um golim.
ESPERTUNIA – Que golim o que, o bafo tá aqui.
ZÉ – O bafo que tá aí é o seu, num é o meu não.
ESPERTUNIA – Olhe aqui, tu num faça piadinha com minha cara não, (PUXANDO PELA ORELHA) tá me ouvindo?
ZÉ – Tô mainha, tô!
ESPERTUNIA – (VAI SAINDO)
ZÉ – Mainha é toda das valentona assim, mai de verdade ela num mata nem uma vaca.
ESPERTUNIA – (VOLTANDO) E tem mais, pela última vez eu vou avisar: ou tu cria vergonha e pára de vagabundagem ou eu ôcê no olho das rua. (SAI).
ZÉ – Mainha é uma gracinha (RIR, OUVI-SE PALMAS) Ôche essas palmas só pode ser cobrança de mainha. Já vai, (CAI) Eu ia caindo, (LEVANTA-SE E ABRE A PORTA) Primo Chiquim com vai ôce?!
CHIQUIM – Diga Zé tudo bom, só?
ZÉ – Mai entra Chiquim que a casa é toda sua
CHIQUIM – Ôce tá bebo Zé?
ZÉ – Eu num tô bebo não! Fica aí, que eu vou chamar a mãe ,pra mode ela vê ôce.
GENOVEVA – (ENTRANDO) Mainha... (VER CHIQUIM) Chiquim!
CHIQUIM – Genovevinha! Ixe Maria, e tu vai ficar aí parada, doida? Num vai dar nenhum abraço no seu primo quirido?
GENOVEVA – (CORRE PARA ABRAÇA-LO) Chiquim é tu memo?
CHIQUIM – Sou eu sim Genoveva, mai tu tá cada vez mai linda.
GENOVEVA – Num fala essas coisas que eu fico com vergonha! Sinto muito pelo que aconteceu.
CHIQUIM – Nem me fala nisso, que chega eu fico triste. Mai cadê a tia Espertunia? Cadê a veia?
GENOVEVA – Tu num fala assim de mainha, porque se ela esculta... Ôce sabe que ela é dessas que mata a cobra e mostra o pau.
ESPERTUNIA – (DE DENTRO) Genoveva, Genoveva, quem é que tá ai?
GENOVEVA – Num é ninguém não! É o Chiquim!
ESPERTUNIA – (ENTRANDO) Mai o peste já chegou?
CHIQUIM – Cheguei sim!
ESPERTUNIA – Como é que tu tá desgraça?
CHIQUIM – Tô em pé!
ESPERTUNIA – Tu num brinca comigo traste! (BATE NELE)
CHIQUIM – Arre, desculpa eu tia.
ESPERTUNIA – Senta aí!
CHIQUIM – Num quero não!
ESPERTUNIA – Senta aí, ou tu senta ou eu te parto a cara!
CHIQUIM – Eta que brincadeira besta, (PAUSA) Eu queria era brincar! Vamo brincar genovevinha?
GENOVEVA – Vamo sim, posso mainha?
ESPERTUNIA – (PARA CHIQUIM) Ôce chamou mia fia de quê, desgraça?
CHIQUIM – (AMEDRONTADO) Genovevinha...
ESPERTUNIA – Que essa seja a última vez, nada de intimidade com mia fia, vice?
CHIQUIM – Tô vissando, tô vissando!
ESPERTUNIA – Agora podem ir, mai eu tô de oi!
GENOVEVA – Ôce nem me pega, (SAEM CORRENDO).
ESPERTUNIA – Dois cavalão desse brincando, tem ate o que ver!
GENOVEVA – (VOLTA CORRENDO) Nem me pega!
CHIQUIM – Ah! Mai tu vai ver como eu pego. (CORREM EM VOLTA DE ESPERTUNIA, BARROAM NELA E ELA DESMAIA).
CHIQUIM – Genoveva! Danou-se tudo, venha aqui rápido!
GENOVEVA – (VÊ SUA MÃE CAÍDA) Mia nossa senhora dos miserável, ôce ficou doido Chiquim?
CHIQUIM – Virge santíssima, ela morreu bateu as bota?
GENOVEVA – Morreu não Chiquim, morreu não mai quando ela acordar quem vai morrer é ôce.
CHIQUIM – E agora o que agente faz?
GENOVEVA – Nós primeiro tem que acordar ela, adespois nós acalma a fera.
CHIQUIM – Mai como, Genoveva?
GENOVEVA – Tô pensando.
CHIQUIM – Já sei, aqui tem veneno de rato.
GENOVEVA – Acho que tem por quê?
CHIQUIM – É só ela dá uma cherada. Ou ela acorda doidona ou morre de vez!
GENOVEVA – Será?
CHIQUIM – Ou vai ou racha!
GENOVEVA – Então eu vou pegar. (VAI SAINDO, PÁRA AFLITA DE PERNAS ABERTAS)
GENOVEVA – Ai, ai, Chiquim, Chiquim me ajuda. (PARALISADA).
CHIQUIM – O que foi Genovevinha o que está acontecendo?
GENOVEVA – Uma, uma, uma barata tá subindo no meu pé, socorro!
CHIQUIM – Calma Genoveva, eu vou te ajudar, (ENTRANDO DEBAIXO DE SUA SAIA).
GENOVEVA – Mata a barata Chiquim, mata!
CHIQUIM – Espera Genoveva eu tô procurando.
GENOVEVA – Tá subindo, socorro Chiquim!
CHIQUIM – Calma Genoveva, eu já vou pegar a barata, não se mexe!
GENOVEVA – Vai logo Chiquim, ai tá subindo! (ESPERTUNIA ESTÁ ACORDANDO).
GENOVEVA – (VÊ ESPERTUNIA SE APROXIMANDO FURIOSA) chiquim tá bom, a barata já foi, chega, chega, chega!
CHIQUIM – Genovevinha ôce...
ESPERTUNIA – (LEVANTA CHIQUIM PELA CAMISA) Tá fazendo o quê com mia fia? E que nigocio é esse de barata?
CHIQUIM – (AMEDRONTADO) Foi a Genoveva quem mandou eu pegar na barata dela!
GENOVEVA – Oxênte Chiquim!
ESPERTUNIA – É o quê? Sua enxerida, tu anda mandando os outros pegar nas tuas coisas! (BATE NELA)
GENOVEVA – Mainha, ele mandou eu pegar o veneno... Ai a barata....
ESPERTUNIA – Veneno...? e pra que esse veneno?
GENOVEVA – Ôche, era pra senhora cheirar.
ESPERTUNIA – (PARA CHIQUIM) Tu queria me matar, desgraça? Tu num tem medo de morrer não?
CHIQUIM – Ô tia, num mata eu não! Num suja tuas mão com eu não. Se tu matar eu... eu...
ESPERTURNIA – Tu o quê? Fala peste!
CHIQUIM – Se tu matar eu...eu.. morro.
ESPERTUNIA – Tu num ia dizer isso não infeliz, tu ia dizer que se eu matasse tu, Genoveva ia ter um fi sem pai, num era?
CHIQUIM – De onde? Mai minha nossa, tu endoidou de vez tá caducando é?
GENOVEVA – Mainha num assucedou nada eu juro!
ESPERTUNIA – Cala boca, rolinha doida! E tu Chiquim de uma mulesta, buliu com mia fia vai ter que casar.
CHIQUIM/ GENOVEVA – O quê?
CHIQUIM – Mai tia e a Raimundona?
ESPERTUNIA – Que Raimundona? Eu é que num vou esperar nove mês, pra mode saber o resultado. Casa sim e adespois de amanhã.
CHIQUIM/ GENOVEVA – O quê?
GENOVEVA – Mai já mainha?!
CHIQUIM – Oxênte pra quê tanta pressa?
ESPERTUNIA – Pra tu num ter tempo de fugir desgraça. (SAI)
GENOVEVA – (RIR) É... Mai eu bem que vou gustar de casar com você, vice!
CHIQUIM – Eu também ate que ia, se num fosse...
ESPERTUNIA – (ENTRANDO) Genoveva Peste.
ZÉ – (ENTRANDO) E aí Chiquim tá gostando primo?
CHIQUIM – Tô nada Zé, a tia quer que eu casa com a Genoveva sem ter feito nada com ela.
ZÉ – Mai casa primo, adepois ôce faz. mia irmã é feinha mai da pra quebar o gai.
CHIQUIM – Mai de querer eu atè que queria, mai é que mode eu num posso.
ZÉ – Mai o jeito é se conformar, pó mode que despois que mainha põem uma coisa na cabeça da sangue na canela e a nega num desiste. (SAI)
CHIQUIM – Mai eu tenho que fazer alguma coisa, mai o quê? E agora? Se correr o bicho pega se correr o bicho come! (SAI)
UM DIA DEPOIS
ESPERTUNIA – (ENTRANDO) Mai é hoje, é hoje que o tampo desencalhar. Mai eu bem que sabia que era só da espaço que a bicha ia dar... dar pa ruim.
ZÉ – (ENTRA BEBENDO) Óia, mai onde tá mia mãe prifirida!
ESPERTUNIA – Mai tu, já tá bebendo de novo fi do cão?
ZÉ – Quem tá bebendo aqui, mãe? Eu? Quem disse essa mintira.
ESPERTUNIA – Ninguém disse nada, eu tô vendo troço.
ZÉ – Vendo o quê?
ESPERTUNIA – Essa garrafa ai atraz. Vem cá. (PEGANDO-O PELA ORELHA). Oia aqui seu bicho imundo, hoje tua irmã vai casar, agora vai botar uma roupa de sair e volta já pra cerimônia. (JOGA ELE PRA DENTRO).
CHIQUIM – Já tô indo, calma, calma.
ESPERTUNIA – Ai agora é só esperar.
CHIQUIM – Deus que a me perdoe, vice, mai eu me livro desse casório se o tampo dessa veia morrer. (PEGA UM PAU). Oi titia!
ESPERTUNIA – O que é que tu quer? (DURANTE A CENA ELE TENTA A TODO CUSTO METER O PAU NA CABEÇA DE ESPERTUNIA, QUE SEMPRE ACABA ESCAPANDO).
CHIQUIM – Quero conversar um cadim com ôce.
ESPERTUNIA – Desembucha, (ENQUANTO ISSO ELA ARRUMA A MESA DO ALTAR)
CHIQUIM – Mai né mior, nós deixar esse casório pra outro dia? Ou já se viu casar sem bolo, bebida e doce.
ESPERTUNIA – Preocupe não, eu fiz tudo cumprei as cachaça, uma buchada das boa...
CHIQUIM – Mai e os convidado?
ESPERTUNIA – Mai tu tá cego? Num tá vendo esse tantão de gente, não? (APONTANDO PARA O PÚBLICO)
CHIQUIM – E as noiva, aposto que ela num tem nem vestido.
ESPERTUNIA – E num tem mermo.
CHIQUIM – Pois então.
ESPERTUNIA – Mai eu dei uns ponto no vestido que eu casei com o finado Geremias e ficou uma beleza pra ela.
CHIQUIM – Mai ai que veia nojenta. (ÚLTIMA INVESTIDA COM O PAU).
ESPERTUNIA – (VIRA-SE A TEMPO, PEGANDO-O EM FLAGRANTE). Mai tu queria me matar peste?
CHIQUIM – Da onde tia! Queria nada! Tava só de brincadeira.
ESPERTUNIA – Tu sabe muito bem que eu tenho nojo de brincadeira, eu já disse que o casamento vai ser hoje e num tem cristão desse mundão de meu Deus que me impida. (GENOVEVA VESTIDA DE NOIVA ENTRA CORRENDO).
GENOVEVA – Chegui, tô bunita Chiquim?
CHIQUIM – Nunca vi um bicho tão bunito! Em toda mia vida.
ESPERTUNIA – Bora começar o casório?
GENOVEVA – Oxênte mainha, mai cadê o padre?
ESPERTUNIA – Cruz credo, eu esqueci do padre!
CHIQUIM – Só pode ser milagre, vamo deixar pra outro dia, pra outro mês, pra outro ano, pra outra vida!
ESPERTUNIA – Mai nem que a vaca tuça.
GENOVEVA – Mai como é que nois vamo casar?
ESPERTUNIA – Vou chamar o peste do seu irmão! (SAI)
GENOVEVA – Ai, mai eu tô feliz demais da conta! E ôce Chiquim o que tá sentido?
CHIQUIM – Eu tô é com medo Genovevinha.
ESPERTUNIA – (ENTRANDO TRAZENDO O ZÉ) Pronto! Tá qui o Zé ele vai fazer o casamento.
GENOVEVA/ CHIQUIM – O quê?
GENOVEVA – Mai mainha o Zé num sabe nem quem é Deus, quanto mais casar os fio de Deus.
ZÉ – Mai ora se num sei Deus é o pai de todo mundo.
ESPERTUNIA – Zé é só dizer tudo que eu mandei. Agora vai!
ZÉ – Em nome do pai, do fi, do ti, da mãe, da vó e do vô.
RAIMUNDONA – (VINDO DO PÚBLICO)Mai que putaria é essa? Seu cabra safado! Fi da mãe filhote de cruz credo o que é que tu tá fazendo? (PARA CHIQUIM).
CHIQUIM – Ra- ra- Raimundona!
GENOVEVA – Mai quem é ela?
RAIMUNDONA – Eu é que pergunto quem é essa pistoleira, macacada de branco?
ESPERTUNIA – Quem é esse diabo? Tu conhece Chiquim?
CHIQUIM – Conheço sim! Ela é Raimundona, por causa dela que eu num queria casar com a Genoveva.
ESPERTUNIA – Aí queria fugir e deixar mia fia barriguda num era?
RAIMUNDONA – Come é que é? Tu vai casar com essa bicha imunda?
GENOVEVA – Vai sim! (AGARRA CHIQUIM). E eu num sou bicho, sua barriguda e tu nem foi convidada, e tá pra nascer quem tome Chiquim de eu.
RAIMUNDONA – Tu vai casar e deixar este peste nascer sem pai?
ESPERTUNIA – Fia vai ali no banheiro, senta na privada faz coco, da descarga e pronto! Tá livre.
RAIMUNDONA – Tu tá pensando que isso aqui é merda é fia? Mais né não, é fi desse homem, (PARA CHIQUIM) desse cachorro da mulesta, desse sem vergonha!
ZÉ – Vai ter casório ou num vai?
ESPERTUNIA – Tu fica calado, e tu (RAIMUNDONA) Vai embora enquanto é tempo.
CHIQUIM – Raimundona vai embora, num cumprica as coisa se tu ficar aqui, essa doida mata eu e tu e adespois bebe o sangue.
RAIMUNDONA – Eu vou, mai tu vem com eu. (PUXA ELE POR UM BRAÇO).
GENOVEVA – (PUXA PELO OUTRO) Ah, mai num vai mermo!
RAIMUNDONA – Ah, mai vai sim!
GENOVEVA – Ah mai num vai não.
ESPERTUNIA – Chega! Eu num quero furdunço no meu sertão. Eu já sei o que fazer, a peste da Genoveva casa com a peste do Chiquim e esse bucho fofo casa com o cachaceiro do Zé.
CHIQUIM – Mai que furdunço é esse, e meu fi?
ZÉ – Ôce dá de comer a ele.
ESPERTUNIA – Tu vai ver o menino todo santo dia, mai vai ter que casar com a peste da mia fia.
RAIMUNDONA – Se meu fi vai ter um pai eu ate que aceito.
CHIQUIM - Ah, genoveva agora podemos casar assucegado!!!
ESPERTUNIA - Ah, chiquim até parece sonho!
ESPERTUNIA – E quem vai fazer o casório agora É eu... Em nome do pai... Vocês vão se casar, mas se brigar, se trair, se tiver safadeza, cachorrada eu passo a foice, entenderam? (FAZEM SINAL QUE SIM).Raimundona Camburão do Bucho Grande, aceita Zé Vagabundo como teu esposo? Pra cuidar do teu moleque e te dar vergonha?
RAIMUNDONA – É o jeito!
ESPERTUNIA – E tu imundo?
ZÉ – Aceito muito feliz!
ESPERTUNIA - Genoveva Pitomba Butique da Fonseca da Canela de Macaco, aceita Chiquim Francisco da Rocha da idade da Pedra Lascada com seu marido? Pra lidar de comer e lhe sustentar?
GENOVEVA – Aceito.
ESPERTUNIA – E tu peste?
CHIQUIM – Eu também aceito!
ESPERTUNIA – Agora chega de furdunço, pode pegar os trapos das noiva porque a festa vai começar! Pegue seu pá gente feia e comecem a dançar cão dos inferno.
E A VIDA CONTINUA...
domingo, 10 de janeiro de 2010
A HORA É ESSA!
PEÇA – A HORA É ESSA!
TEXTO E DIREÇÃO
Denílson David
PERSONAGENS –
Jorge Diretor sonhador
Luís Professor conservador
Alice Professora revolucionário
Regina Faxineira
OS ALUNOS:
Fafá implicante
Paulo engraçadinho
Tina babona Max Malandro
Bio Cdf
ATO ÚNICO
Abrem-se as cortinas, entram alunos de todos os lados. Conversam e riem muito. Em meio á eles está Dona Regina que varre a escola. Entra Alice carregada de livros. Tropeça e cai. Todos riem. O sinal toca, os alunos saem de cena.
REGINA – (Entra varrendo e pára quando vê Alice) Posso ajudar a dona?
ALICE – Oi, eu sou professora me chamo Alice muito prazer!
REGINA – Prazer Regina!
ALICE – Sabe o que é dona Regina? É que eu vim substituir o professor Teobaldo. Mais o problema é que eu não conheço ninguém aqui. A senhora poderia me ajudar?
REGINA – Você tem mesmo certeza que quer ensinar neste colégio?
ALICE – Claro.
REGINA – Às vezes penso que ate um santo desistiria de ensinar na Rainha da Paz. Eu mesma só trabalho aqui por falta de opção.
ALICE – Mais por quê?
REGINA – Os alunos daqui são umas pestes, Tem de tudo bandido, marginal, prostituta, todos os dias venho trabalhar esperando encontrar a morte aqui nesta escola.
ALICE – É tão perigoso assim?
REGINA – Perigoso é pouco minha filha, isso aqui é um inferno! Cuidado, muito cuidado. (Sai)
ALICE – Inferno? Dona Regina, dona Regina a senhora precisa me ajudar. (Jorge entra pelo lado oposto e esbarra com Alice)
JORGE – Desculpa. Bom dia, você quem é?
ALICE – Alice sou a professora substituta do...
JORGE – Claro, seja bem vinda!Eu sou Jorge diretor da escola.
ALICE – Obrigada.
JORGE – Espero que se adapte bem. Creio que já tenha ouvido falar em o quanto é difícil lecionar na Rainha Paz.
ALICE – Ouvi coisas terríveis, o senhor nem imagina.
JORGE – Admiro sua franqueza! Apesar dos pesares essa escola é minha vida gostaria de vê – lá transformada em algo mais um simples... Edifício. Mais eu estou tão sozinho, entende?
ALICE – Acho que sim.
JORGE – A escola está ai para educar. Os pais esperam que façamos milagres com os filhos com apenas 4 horas de contato por dia.
ALICE - Pois é. E muitos põem os filhos na escola porque não tem onde colocar.
JORGE - Quando eu digo que os pais precisam ser reeducados dizem que sou implicante em lares sadios a formação do jovem se torna muito equilibrada.
ALICE-E como reeducar os pais?
JORGE - Essa é uma boa pergunta! Que precisa imediatamente de uma resposta. muito bem, como pode ver será uma difícil tarefa! Agora vamos até a sala dos professores. Suas aulas serão à tarde e a noite e você poderá entrar em contato com os alunos ainda hoje. (Saem)
(SALA DE AULA)
LUIZ – Todos sentados! O sinal já bateu. Eu não quero ouvir nem mais um ruído!
BIO – Licença professor, posso entrar?
LUIZ – É claro que não. O sinal tocou faz dois minutos. Retire-se, por favor!
BIO – Mais professor eu estava na biblioteca...
LUIZ – (cortando-o) Pouco me importa o que você faz ou deixa de fazer, fora!
BIO – Mas...
LUIZ – Fora! E que isso sirva de exemplo para todos.
FAFÁ – (grita estérica) Roubaram meu dinheiro!
TINA – Tem certeza?
FAFÁ – Claro que tenho! Eu tinha um e ciquenta na bolsinha e agora não está mais!
PAULO - que ladrão barato se sujar por tão pouco.
LUIZ – Então existe um ladrão nessa classe?
MAX – chame a polícia fafá, isso é caso de cadeia.
ALICE – Bom se ate o sinal bater esse dinheiro não aparecer amanhã todos terão que fazer um provão com os assuntos durante o ano todo. (Reclamação Geral)
FAFÁ – Eu também professor?
LUÍZ – Você também!
TINA – Professora e ela estiverem mentindo?
FAFÁ – Eu não sou mentirosa! Se repetir isso eu enfio essa bolsa pelo seu ouvido.
LUÍZ – Silêncios todos! Minha decisão já foi tomada!(Bate o sinal LUÍZ sai).
MAX - Eu não suporto esse Luiz.
BIO –(entrando) Gente tão falando que é professora nova. O velho Teobaldo não agüentou o tranco. Pediu demissão.
PAULO – Se for igual ao teobaldo velho gaga e caindo os pedaços vai ser fácil. (Entra Alice e Jorge).
JORGE – Bom dia pessoal gostaria de apresentar a nova professora de geografia a Alice. Tratem-na com educação, boa aula!
MAX – Rapaz que professora gostosinha!
ALICE – Oi para todos. Meu nome é Alice! Quero conhecer cada um de vocês, mais de uma forma diferente.
TINA – Professora é só fazer a chamada.
ALICE – Isso fica pra depois. É o seguinte: um a um vão vir aqui no centro. Dizer seu nome e fazer um movimento estranho, e todos repetem e assim por diante. Entendido? Vamos começar?
MAX – Isso é coisa de frutinha.
ALICE – Por favor, não custa nada participar. vamos começar?
(TODOS PARTICIPAM MESMO QUE UM POUCO TÍMIDOS)
ALICE – Muito bem. Agora em seus lugares. Por favor, gostariam que vocês abrissem o livro na página 17. Vamos ler sobre espaço geográfico, quem poderia ler?
BIO-Eu professora! (lendo) Espaço – Distância entre dois pontos, lugar mais ou menos bem delimitado, cuja...
ALICE – Espere, por favor, fechem os livros.
TINA - Professora a gente acabou de abrir.
ALICE - (Rir) – Mais e daí abriu, agora fecha, simples. Gente eu não sei por que os livros insistem em serem chatos não buscam o novo. Espaço nada mais é que um lugar delimitado que pode ou não conter alguma coisa. (pausa) Troquem de lugares. Todos vamos. Agora fiquem de pé nas carteiras.
FAFÁ - O que é isso é maluquice!
ALICE - temos que ser um pouco malucos para entendermos a loucura da vida querida, ande fiquem de pé. (a começar por Paulo todos fica exeto tina).
TINA - Eu não fico.
ALICE - Observe a sala de um outro Ângulo de uma maneira diferente.
PAULO – Aí, é estranho não dar para explicar, é diferente.
ALICE - Vocês estão vendo o mesmo espaço, mas de forma diferente. Agora vamos ver outros espaços. Outros espaços, outros lugares.
MAX - Vamos sair da sala de aula?
ALICE - É, vamos dar uma voltinha.
TINA - Essa professora é maluca. (Saem)
.
LUIZ –(entrando) Mais que barulho é esse?
TINA – Professor, essa estranha que acabou de entrar é doida varrida não fez chamada. Mandou fechar os livros. Mandou todo mundo subir nas carteiras. E pra completar foram passear.
LUIZ – Isso é um absurdo!
TINA – Pois é!
LUIZ – Amanhã é um outro dia. Logo cedo falarei com o diretor
(DIA SEGUINTE)
(SALA DOS PROFESSRES)
DOUTOR JORGE – (Entrando) Bom dia, Dona Regina!
DONA REGINA – Bom dia Sr. Jorge!
ALICE – Bom dia a todos!(Jorge e Regina respondem)
LUIZ – (Entrando) Operário faz greve, funcionário publico federal faz greve, médico faz greve... Mais quando chega a vez do professor, ele entra pelo cano. Maldita hora que comecei a lecionar! Eu deveria qualquer coisa na vida menos professor.
REGINA - Você reclama demais da vida.
LUIZ - A vida está pela hora da morte, não sei o que mais o governo quer da gente! Quando chega a sexta-feira, estou querendo morrer!
JORGE - Também quem manda ensinar os três turnos.
REGINA - Belas aulas devem ser!
ALICE - Eu com um turno eu quase morro. Como faz para corrigir as provas?
LUÍZ - E você acha que sou cretino de corrigir? Dou nota pela cara do aluno e ele que se dane.
JORGE - Mais isto está errado.
LUIZ - E que me importa? Hoje em dia, ninguém leva a coisa a sério, ninguém quer estudar!
ALICE - Mais se todos fizerem como você aí sim que os alunos vão aprender cada vez menos.
LUIZ – Não me critique mocinha! Eu já fiquei sabendo que suas aulas são esquisitas.
ALICE – Esquisitas, por quê? Por que busco o novo, eu estou cansada de dar aulas enfadonhas e que o aluno assiste simplesmente por obrigação. O aluno tem que vir pra escola por prazer, ele tem que gostar para aprender.
LUÍZ - Isso aqui é uma escola minha filha e não um parque de diversões nosso dever é ensinar e não de divertir ninguém. (Com licença)
JORGE – Sinceramente Luiz, não sei por que cargas d´agua você escolheu ser professor.
LUÍZ - Eu pensei que estava fazendo uma boa escolha, mais francamente com o salário que ganhamos...
ALICE - É meu caro Luiz, o governo finge que paga. Os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. É um maldito ciclo que precisa ser quebrado.
JORGE – Mim desculpe Alice, é que e meio, meio...
ALICE – Quadrado! Agora eu entendo porque a escola anda tão mau. Bem os alunos me esperam.
REGINA – Esse dois juntos na vai prestar.
JORGE – É seja o que Deus quiser.
(SALA DE AULA)
ALICE – Bom dia! Hoje eu trouxe um dvd sobre o conteúdo que estamos estudando para que vocês possam entender melhor a matéria. Esperem, é impressão minha ou tem alguém fumando? Quem está fumando?
MAX – Sou eu e daí?
ALICE – É proibido fumar em sala de aula, o senhor sabia?
MAX – Não sabia e preferiria ficar sem saber. (Risos)
ALICE – Por favor, queira tirar o cigarro fora.
ALUNO – Aí tu que pediu! (Amassa o cigarro na cabeça do aluno que está a sua frente).
BIO – Eu vou contar tudo pra mamãe!
PAULO - aí Bio virou cinzeiro heim!
ALICE – Isso não foi nada educado, tenha a bondade de jogar o cigarro fora.
MAX – Não tô afim.
ALICE – Muito bem... Turma, vocês podem ir caminhando para a sala de vídeo. Eu vou em seguida.
(TODOS VÃO SAINDO)
ALICE – Você fica Max.
MAX – Por quê?
ALICE – Eu quero conversar com você.
MAX – Não tô a fim de papo.
ALICE – Tudo bem, eu não quero forçar a barra mais olha, rebeldia não é querer e contra tudo e contra toda a rebeldia é ser quem você é sem medo. Porém sem ferir nem machucar ninguém. Você está indo pelo caminho errado meu caro Max, Se cuida! Precisando eu estou aí. (Saí)
MAX - cara, ela é mesmo demais!
DIA SEGUINTE
(PÁTIO)
FAFÁ – Ai eu adorei o filme de ontem!
PAULO - Gente, a professora Alice era tudo que a escola estava precisando.
TINA – Ai não sei não. Acho ela muito maluquinha muito cheia dei nvenção.
MAX – Claro pra você professor bom é só o seu amado: O Luiz (Todos) Ai Luiz!
TINA – Morram, morram todos vocês.
REGINA – (entrando) Hei cambada o sinal já tocou. Vamos, vamos, já pra sala!
BIO – galera vamos assistir à aula da nossa querida Alice. (Saem Alice Entra).
ALICE - Bom dia!
REGINA - Meu Deus que animação!
ALICE - Hoje eu estou a todo vapor. Regina eu queria te fazer uma pergunta: Como a gente descobre o que as pessoas querem da vida!
REGINA - Perguntando ora essa.
ALICE - Parece simples.
REGINA - Quanto mais o homem tenta descomplicar as coisas, mais ele complica.
ALICE - Acho que a senhora acaba de me dar uma idéia. Bom acha melhor eu sair à aula já vai começar. (SAI)
(SALA DE AULA)
ALICE – Bom, gente, e ai, como passaram o fim de semana?
PAULO – Ai o meu foi super tranqüilo.
FAFÁ - o meu foi triste.
ALICE – Bem o semestre está terminando e parece que foi ontem que nos conhecemos. Agora depois de quatro meses será que nos conhecemos mesmo? Será que nos tornamos amigos de verdade? Eu gostaria de voltar das férias e começar diferente. Mas para que isso aconteça, eu preciso saber o que realmente pensam sobre a escola, a classe, a matéria sobre mim, o diretor, professores, sua casa cidade, este país. Se o professor não sabe o que o aluno pensa e espera da vida, como pode orientá-lo ou ajuda-lo? Gostaria que abrissem o coração e diga tudo o que sentem. Desabafem-se à vontade. Acredite será muito importante e somente eu irei ler essas redações.
MAX - Posso escrever mesmo tudo professora?
ALICE - Pode. Não deve! Saibam que não ficarei ofendida se disserem que sou uma chata. Muito ao contrário é honestidade fiquem a vontade teremos a aula inteira. Só pra isso.
ALICE – (lendo) Eu sou um aluno. Sou repetente da oitava. Uns professores não vão com a minha cara. Sabe por quê? Por que se vou bem, nas provas ele acham que colei. Eles nunca acreditam nas coisas que eu sei.
Veja história, por exemplo, o professor que eu decore o nome dos papas. O que me interessa? Eu sei quem é o papa de hoje, mas aqueles que já morreram que diferenças me fazem? Uns colegas meus conseguem decorar igual a papagaio e repetem tudo como que gravador. Depois que acaba a sabatina, sacodem a cabeça... E esquecem tudo.
Já falei com meu pai de sair da escola, por que sei que não, que ninguém vive sem escola. Mas eu pergunto: de que serve a escola, se não ensina nada do que eu quero? Só pra pegar um diploma e guardar no fundo da gaveta? É triste e chata a gente ser obrigado a ficar sentado numa carteira enquanto os professores falam, falam, falam coisas que servem para nada!Meu deus aqui está o caminho... (entra Jorge e luiz).
JORGE - É Alice, enfim chegaram as nossas merecidas férias.
ALICE - Durante as férias, farei um longo exame de consciência e, se tudo der certo como penso, vou começar uma revolução na RAINHA DO CÉU quando começarem as aulas.
LUÍZ - Não vou mexer uma vírgula no meu planejamento. Durante as férias quero sumir, desaparecer se eu ouvir falar em escola arrebento!(saem)
(FÉRIAS)
(sala de aula. Quando Alice chega está o maior corre e corre e tudo bagunçado e revirado.).
ALICE - O que aconteceu?
REGINA - Vândalos dona Alice, vândalos! Entraram na escola e fizeram sujeirada na secretaria, diretoria, cozinha, uma tristeza!
JORGE - Isso é coisa que se faça? Temos tanta dificuldade para manter tudo em ordem, e agora...
LUÍZ - È isso ai meus senhores, depois aparecem certos cidadãos e psicólogos querendo dizer que não existe delinqüência juvenil.
JORGE - Esta bem! Não adianta ficarmos só olhando. È lógico que não teremos aula hoje porque também andaram sujando, dispensem as classes. Precisamos de voluntários que nos ajude a colocar a escola em ordem.
ALICE - Porque não pedimos colaboração dos alunos?
LUÍZ - Alunos? (RIR) essas pestes só servem para atrapalhar.
ALICE - Pois eu vou pedir a uns alunos meus que ajudem.
JORGE - Ótima idéia
ALICE – pessoal eu peço um minuto de atenção. uns engraçadinhos viraram nossa escola do avesso.destruíram quase tudo,agora é para que tudo volte ao normal depende de vocês!
TINA-como assim?
ALICE - ou arregaçamos as mangas e reorganizamos tudo, ou simplesmente cruzamos os braços e assistimos o fim da nossa escola. Então o que me dizem?
(SILÊNCIO)
ALICE - Bem se assim que vocês querem... acho que tenho mais nada que fazer aqui.(vai saindo)
PAULO - espere... Alice eu to dentro!
BIO - eu também!
TINA - a Alice tem razão, essa escola é nossa. por isso não podemos deixar que nada nem ninguém acabem com ela!
MAX - é isso aí vamos revolucionar!
FAFÁ – É isso aí galera, à hora é essa!
(TODOS SE AGITAM)
ALICE - pessoal por que não pintamos a rainha da paz? Quem gosta da cor desta escola?
TINA - Detesto esse amarelinho anêmico! Todas as escolas as escolas precisam ser iguais? Que horror, que falta de originalidade!
JORGE - De que cor você gostaria de ver esta sala?
FAFÁ - Ai, Deus me livre! Prefiro azul.
ALICE - Bem, é claro que não temos dinheiro para pagar um pintor, mais dinheiro para comprar a tinta, podemos dar um jeito. Se resolvêssemos o cano do pintor...
PAULO - Hei esperai! Pintor eu sei e até gosto.
MAX - Eu não sei pintar, mas se me ensinarem aprende depressa.
BIO - Eu também!
FAFÁ - E como vamos arranjar dinheiro para a tinta, professora?
ALICE - Podemos organizar bazares, bingo rifas, feijoadas, leilões...
TINA - E nós mulheres, vamos ficar só olhando?
JORGE - Por que as meninas não fazem cortinas?Quem sabe nossa sala de aula tomaria um ar de sala de conversa em vez de sala de aula?
REGINA - Eu ajudo a fazer a cortina.
FAFÁ-. Também posso ajudar?
TINA - Adorei a gente poderia até trazer um som.
ALICE - Se for baixinho, música suave, que ajude a concentração, positivo.
MAX-, quando podemos começar a pintar?
ALICE - Porque não agora mesmo?
BIO - Como?
JORGE - Tudo precisa ter o primeiro passo para começar. Parece que o nosso tem que ser agora. a hora é essa!!!(todos vibram)
REGINA - Não posso acreditar no que estou vendo!
JORGE - Pois é eu também não queria acreditar. Mas a senhora está vendo com seus próprios olhos.
ALICE - É que simplesmente descobriram que gostam da escola! E tem mais, vão fazer uma horta, comutaria uma rádio escolar, Grêmio Estudantil.
JORGE - è temos que admitir que nossa escola já não seja mais a mesma!
LUÌZ - Vocês não vão conseguir da noite pro dia transformar essa escola
JORGE - Toda corrida começa pelo primeiro passo, e esse é o nosso primeiro passo, uma grande corrida que se inicia rumo à educação que queremos e a escola que sonhamos.
LUÌZ - É eu acho que estão sonhando alto demais. Cuidado com o tombo
REGINA - Sonhar não custa nada.
ALICE - Pois é já dizia Dom Helder Câmara: Sonho que se sonha só é apenas sonho, mas sonho que se sonha junto é a realidade que começa acontecer!
E A VIDA CONTINUA...
TEXTO E DIREÇÃO
Denílson David
PERSONAGENS –
Jorge Diretor sonhador
Luís Professor conservador
Alice Professora revolucionário
Regina Faxineira
OS ALUNOS:
Fafá implicante
Paulo engraçadinho
Tina babona Max Malandro
Bio Cdf
ATO ÚNICO
Abrem-se as cortinas, entram alunos de todos os lados. Conversam e riem muito. Em meio á eles está Dona Regina que varre a escola. Entra Alice carregada de livros. Tropeça e cai. Todos riem. O sinal toca, os alunos saem de cena.
REGINA – (Entra varrendo e pára quando vê Alice) Posso ajudar a dona?
ALICE – Oi, eu sou professora me chamo Alice muito prazer!
REGINA – Prazer Regina!
ALICE – Sabe o que é dona Regina? É que eu vim substituir o professor Teobaldo. Mais o problema é que eu não conheço ninguém aqui. A senhora poderia me ajudar?
REGINA – Você tem mesmo certeza que quer ensinar neste colégio?
ALICE – Claro.
REGINA – Às vezes penso que ate um santo desistiria de ensinar na Rainha da Paz. Eu mesma só trabalho aqui por falta de opção.
ALICE – Mais por quê?
REGINA – Os alunos daqui são umas pestes, Tem de tudo bandido, marginal, prostituta, todos os dias venho trabalhar esperando encontrar a morte aqui nesta escola.
ALICE – É tão perigoso assim?
REGINA – Perigoso é pouco minha filha, isso aqui é um inferno! Cuidado, muito cuidado. (Sai)
ALICE – Inferno? Dona Regina, dona Regina a senhora precisa me ajudar. (Jorge entra pelo lado oposto e esbarra com Alice)
JORGE – Desculpa. Bom dia, você quem é?
ALICE – Alice sou a professora substituta do...
JORGE – Claro, seja bem vinda!Eu sou Jorge diretor da escola.
ALICE – Obrigada.
JORGE – Espero que se adapte bem. Creio que já tenha ouvido falar em o quanto é difícil lecionar na Rainha Paz.
ALICE – Ouvi coisas terríveis, o senhor nem imagina.
JORGE – Admiro sua franqueza! Apesar dos pesares essa escola é minha vida gostaria de vê – lá transformada em algo mais um simples... Edifício. Mais eu estou tão sozinho, entende?
ALICE – Acho que sim.
JORGE – A escola está ai para educar. Os pais esperam que façamos milagres com os filhos com apenas 4 horas de contato por dia.
ALICE - Pois é. E muitos põem os filhos na escola porque não tem onde colocar.
JORGE - Quando eu digo que os pais precisam ser reeducados dizem que sou implicante em lares sadios a formação do jovem se torna muito equilibrada.
ALICE-E como reeducar os pais?
JORGE - Essa é uma boa pergunta! Que precisa imediatamente de uma resposta. muito bem, como pode ver será uma difícil tarefa! Agora vamos até a sala dos professores. Suas aulas serão à tarde e a noite e você poderá entrar em contato com os alunos ainda hoje. (Saem)
(SALA DE AULA)
LUIZ – Todos sentados! O sinal já bateu. Eu não quero ouvir nem mais um ruído!
BIO – Licença professor, posso entrar?
LUIZ – É claro que não. O sinal tocou faz dois minutos. Retire-se, por favor!
BIO – Mais professor eu estava na biblioteca...
LUIZ – (cortando-o) Pouco me importa o que você faz ou deixa de fazer, fora!
BIO – Mas...
LUIZ – Fora! E que isso sirva de exemplo para todos.
FAFÁ – (grita estérica) Roubaram meu dinheiro!
TINA – Tem certeza?
FAFÁ – Claro que tenho! Eu tinha um e ciquenta na bolsinha e agora não está mais!
PAULO - que ladrão barato se sujar por tão pouco.
LUIZ – Então existe um ladrão nessa classe?
MAX – chame a polícia fafá, isso é caso de cadeia.
ALICE – Bom se ate o sinal bater esse dinheiro não aparecer amanhã todos terão que fazer um provão com os assuntos durante o ano todo. (Reclamação Geral)
FAFÁ – Eu também professor?
LUÍZ – Você também!
TINA – Professora e ela estiverem mentindo?
FAFÁ – Eu não sou mentirosa! Se repetir isso eu enfio essa bolsa pelo seu ouvido.
LUÍZ – Silêncios todos! Minha decisão já foi tomada!(Bate o sinal LUÍZ sai).
MAX - Eu não suporto esse Luiz.
BIO –(entrando) Gente tão falando que é professora nova. O velho Teobaldo não agüentou o tranco. Pediu demissão.
PAULO – Se for igual ao teobaldo velho gaga e caindo os pedaços vai ser fácil. (Entra Alice e Jorge).
JORGE – Bom dia pessoal gostaria de apresentar a nova professora de geografia a Alice. Tratem-na com educação, boa aula!
MAX – Rapaz que professora gostosinha!
ALICE – Oi para todos. Meu nome é Alice! Quero conhecer cada um de vocês, mais de uma forma diferente.
TINA – Professora é só fazer a chamada.
ALICE – Isso fica pra depois. É o seguinte: um a um vão vir aqui no centro. Dizer seu nome e fazer um movimento estranho, e todos repetem e assim por diante. Entendido? Vamos começar?
MAX – Isso é coisa de frutinha.
ALICE – Por favor, não custa nada participar. vamos começar?
(TODOS PARTICIPAM MESMO QUE UM POUCO TÍMIDOS)
ALICE – Muito bem. Agora em seus lugares. Por favor, gostariam que vocês abrissem o livro na página 17. Vamos ler sobre espaço geográfico, quem poderia ler?
BIO-Eu professora! (lendo) Espaço – Distância entre dois pontos, lugar mais ou menos bem delimitado, cuja...
ALICE – Espere, por favor, fechem os livros.
TINA - Professora a gente acabou de abrir.
ALICE - (Rir) – Mais e daí abriu, agora fecha, simples. Gente eu não sei por que os livros insistem em serem chatos não buscam o novo. Espaço nada mais é que um lugar delimitado que pode ou não conter alguma coisa. (pausa) Troquem de lugares. Todos vamos. Agora fiquem de pé nas carteiras.
FAFÁ - O que é isso é maluquice!
ALICE - temos que ser um pouco malucos para entendermos a loucura da vida querida, ande fiquem de pé. (a começar por Paulo todos fica exeto tina).
TINA - Eu não fico.
ALICE - Observe a sala de um outro Ângulo de uma maneira diferente.
PAULO – Aí, é estranho não dar para explicar, é diferente.
ALICE - Vocês estão vendo o mesmo espaço, mas de forma diferente. Agora vamos ver outros espaços. Outros espaços, outros lugares.
MAX - Vamos sair da sala de aula?
ALICE - É, vamos dar uma voltinha.
TINA - Essa professora é maluca. (Saem)
.
LUIZ –(entrando) Mais que barulho é esse?
TINA – Professor, essa estranha que acabou de entrar é doida varrida não fez chamada. Mandou fechar os livros. Mandou todo mundo subir nas carteiras. E pra completar foram passear.
LUIZ – Isso é um absurdo!
TINA – Pois é!
LUIZ – Amanhã é um outro dia. Logo cedo falarei com o diretor
(DIA SEGUINTE)
(SALA DOS PROFESSRES)
DOUTOR JORGE – (Entrando) Bom dia, Dona Regina!
DONA REGINA – Bom dia Sr. Jorge!
ALICE – Bom dia a todos!(Jorge e Regina respondem)
LUIZ – (Entrando) Operário faz greve, funcionário publico federal faz greve, médico faz greve... Mais quando chega a vez do professor, ele entra pelo cano. Maldita hora que comecei a lecionar! Eu deveria qualquer coisa na vida menos professor.
REGINA - Você reclama demais da vida.
LUIZ - A vida está pela hora da morte, não sei o que mais o governo quer da gente! Quando chega a sexta-feira, estou querendo morrer!
JORGE - Também quem manda ensinar os três turnos.
REGINA - Belas aulas devem ser!
ALICE - Eu com um turno eu quase morro. Como faz para corrigir as provas?
LUÍZ - E você acha que sou cretino de corrigir? Dou nota pela cara do aluno e ele que se dane.
JORGE - Mais isto está errado.
LUIZ - E que me importa? Hoje em dia, ninguém leva a coisa a sério, ninguém quer estudar!
ALICE - Mais se todos fizerem como você aí sim que os alunos vão aprender cada vez menos.
LUIZ – Não me critique mocinha! Eu já fiquei sabendo que suas aulas são esquisitas.
ALICE – Esquisitas, por quê? Por que busco o novo, eu estou cansada de dar aulas enfadonhas e que o aluno assiste simplesmente por obrigação. O aluno tem que vir pra escola por prazer, ele tem que gostar para aprender.
LUÍZ - Isso aqui é uma escola minha filha e não um parque de diversões nosso dever é ensinar e não de divertir ninguém. (Com licença)
JORGE – Sinceramente Luiz, não sei por que cargas d´agua você escolheu ser professor.
LUÍZ - Eu pensei que estava fazendo uma boa escolha, mais francamente com o salário que ganhamos...
ALICE - É meu caro Luiz, o governo finge que paga. Os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. É um maldito ciclo que precisa ser quebrado.
JORGE – Mim desculpe Alice, é que e meio, meio...
ALICE – Quadrado! Agora eu entendo porque a escola anda tão mau. Bem os alunos me esperam.
REGINA – Esse dois juntos na vai prestar.
JORGE – É seja o que Deus quiser.
(SALA DE AULA)
ALICE – Bom dia! Hoje eu trouxe um dvd sobre o conteúdo que estamos estudando para que vocês possam entender melhor a matéria. Esperem, é impressão minha ou tem alguém fumando? Quem está fumando?
MAX – Sou eu e daí?
ALICE – É proibido fumar em sala de aula, o senhor sabia?
MAX – Não sabia e preferiria ficar sem saber. (Risos)
ALICE – Por favor, queira tirar o cigarro fora.
ALUNO – Aí tu que pediu! (Amassa o cigarro na cabeça do aluno que está a sua frente).
BIO – Eu vou contar tudo pra mamãe!
PAULO - aí Bio virou cinzeiro heim!
ALICE – Isso não foi nada educado, tenha a bondade de jogar o cigarro fora.
MAX – Não tô afim.
ALICE – Muito bem... Turma, vocês podem ir caminhando para a sala de vídeo. Eu vou em seguida.
(TODOS VÃO SAINDO)
ALICE – Você fica Max.
MAX – Por quê?
ALICE – Eu quero conversar com você.
MAX – Não tô a fim de papo.
ALICE – Tudo bem, eu não quero forçar a barra mais olha, rebeldia não é querer e contra tudo e contra toda a rebeldia é ser quem você é sem medo. Porém sem ferir nem machucar ninguém. Você está indo pelo caminho errado meu caro Max, Se cuida! Precisando eu estou aí. (Saí)
MAX - cara, ela é mesmo demais!
DIA SEGUINTE
(PÁTIO)
FAFÁ – Ai eu adorei o filme de ontem!
PAULO - Gente, a professora Alice era tudo que a escola estava precisando.
TINA – Ai não sei não. Acho ela muito maluquinha muito cheia dei nvenção.
MAX – Claro pra você professor bom é só o seu amado: O Luiz (Todos) Ai Luiz!
TINA – Morram, morram todos vocês.
REGINA – (entrando) Hei cambada o sinal já tocou. Vamos, vamos, já pra sala!
BIO – galera vamos assistir à aula da nossa querida Alice. (Saem Alice Entra).
ALICE - Bom dia!
REGINA - Meu Deus que animação!
ALICE - Hoje eu estou a todo vapor. Regina eu queria te fazer uma pergunta: Como a gente descobre o que as pessoas querem da vida!
REGINA - Perguntando ora essa.
ALICE - Parece simples.
REGINA - Quanto mais o homem tenta descomplicar as coisas, mais ele complica.
ALICE - Acho que a senhora acaba de me dar uma idéia. Bom acha melhor eu sair à aula já vai começar. (SAI)
(SALA DE AULA)
ALICE – Bom, gente, e ai, como passaram o fim de semana?
PAULO – Ai o meu foi super tranqüilo.
FAFÁ - o meu foi triste.
ALICE – Bem o semestre está terminando e parece que foi ontem que nos conhecemos. Agora depois de quatro meses será que nos conhecemos mesmo? Será que nos tornamos amigos de verdade? Eu gostaria de voltar das férias e começar diferente. Mas para que isso aconteça, eu preciso saber o que realmente pensam sobre a escola, a classe, a matéria sobre mim, o diretor, professores, sua casa cidade, este país. Se o professor não sabe o que o aluno pensa e espera da vida, como pode orientá-lo ou ajuda-lo? Gostaria que abrissem o coração e diga tudo o que sentem. Desabafem-se à vontade. Acredite será muito importante e somente eu irei ler essas redações.
MAX - Posso escrever mesmo tudo professora?
ALICE - Pode. Não deve! Saibam que não ficarei ofendida se disserem que sou uma chata. Muito ao contrário é honestidade fiquem a vontade teremos a aula inteira. Só pra isso.
ALICE – (lendo) Eu sou um aluno. Sou repetente da oitava. Uns professores não vão com a minha cara. Sabe por quê? Por que se vou bem, nas provas ele acham que colei. Eles nunca acreditam nas coisas que eu sei.
Veja história, por exemplo, o professor que eu decore o nome dos papas. O que me interessa? Eu sei quem é o papa de hoje, mas aqueles que já morreram que diferenças me fazem? Uns colegas meus conseguem decorar igual a papagaio e repetem tudo como que gravador. Depois que acaba a sabatina, sacodem a cabeça... E esquecem tudo.
Já falei com meu pai de sair da escola, por que sei que não, que ninguém vive sem escola. Mas eu pergunto: de que serve a escola, se não ensina nada do que eu quero? Só pra pegar um diploma e guardar no fundo da gaveta? É triste e chata a gente ser obrigado a ficar sentado numa carteira enquanto os professores falam, falam, falam coisas que servem para nada!Meu deus aqui está o caminho... (entra Jorge e luiz).
JORGE - É Alice, enfim chegaram as nossas merecidas férias.
ALICE - Durante as férias, farei um longo exame de consciência e, se tudo der certo como penso, vou começar uma revolução na RAINHA DO CÉU quando começarem as aulas.
LUÍZ - Não vou mexer uma vírgula no meu planejamento. Durante as férias quero sumir, desaparecer se eu ouvir falar em escola arrebento!(saem)
(FÉRIAS)
(sala de aula. Quando Alice chega está o maior corre e corre e tudo bagunçado e revirado.).
ALICE - O que aconteceu?
REGINA - Vândalos dona Alice, vândalos! Entraram na escola e fizeram sujeirada na secretaria, diretoria, cozinha, uma tristeza!
JORGE - Isso é coisa que se faça? Temos tanta dificuldade para manter tudo em ordem, e agora...
LUÍZ - È isso ai meus senhores, depois aparecem certos cidadãos e psicólogos querendo dizer que não existe delinqüência juvenil.
JORGE - Esta bem! Não adianta ficarmos só olhando. È lógico que não teremos aula hoje porque também andaram sujando, dispensem as classes. Precisamos de voluntários que nos ajude a colocar a escola em ordem.
ALICE - Porque não pedimos colaboração dos alunos?
LUÍZ - Alunos? (RIR) essas pestes só servem para atrapalhar.
ALICE - Pois eu vou pedir a uns alunos meus que ajudem.
JORGE - Ótima idéia
ALICE – pessoal eu peço um minuto de atenção. uns engraçadinhos viraram nossa escola do avesso.destruíram quase tudo,agora é para que tudo volte ao normal depende de vocês!
TINA-como assim?
ALICE - ou arregaçamos as mangas e reorganizamos tudo, ou simplesmente cruzamos os braços e assistimos o fim da nossa escola. Então o que me dizem?
(SILÊNCIO)
ALICE - Bem se assim que vocês querem... acho que tenho mais nada que fazer aqui.(vai saindo)
PAULO - espere... Alice eu to dentro!
BIO - eu também!
TINA - a Alice tem razão, essa escola é nossa. por isso não podemos deixar que nada nem ninguém acabem com ela!
MAX - é isso aí vamos revolucionar!
FAFÁ – É isso aí galera, à hora é essa!
(TODOS SE AGITAM)
ALICE - pessoal por que não pintamos a rainha da paz? Quem gosta da cor desta escola?
TINA - Detesto esse amarelinho anêmico! Todas as escolas as escolas precisam ser iguais? Que horror, que falta de originalidade!
JORGE - De que cor você gostaria de ver esta sala?
FAFÁ - Ai, Deus me livre! Prefiro azul.
ALICE - Bem, é claro que não temos dinheiro para pagar um pintor, mais dinheiro para comprar a tinta, podemos dar um jeito. Se resolvêssemos o cano do pintor...
PAULO - Hei esperai! Pintor eu sei e até gosto.
MAX - Eu não sei pintar, mas se me ensinarem aprende depressa.
BIO - Eu também!
FAFÁ - E como vamos arranjar dinheiro para a tinta, professora?
ALICE - Podemos organizar bazares, bingo rifas, feijoadas, leilões...
TINA - E nós mulheres, vamos ficar só olhando?
JORGE - Por que as meninas não fazem cortinas?Quem sabe nossa sala de aula tomaria um ar de sala de conversa em vez de sala de aula?
REGINA - Eu ajudo a fazer a cortina.
FAFÁ-. Também posso ajudar?
TINA - Adorei a gente poderia até trazer um som.
ALICE - Se for baixinho, música suave, que ajude a concentração, positivo.
MAX-, quando podemos começar a pintar?
ALICE - Porque não agora mesmo?
BIO - Como?
JORGE - Tudo precisa ter o primeiro passo para começar. Parece que o nosso tem que ser agora. a hora é essa!!!(todos vibram)
REGINA - Não posso acreditar no que estou vendo!
JORGE - Pois é eu também não queria acreditar. Mas a senhora está vendo com seus próprios olhos.
ALICE - É que simplesmente descobriram que gostam da escola! E tem mais, vão fazer uma horta, comutaria uma rádio escolar, Grêmio Estudantil.
JORGE - è temos que admitir que nossa escola já não seja mais a mesma!
LUÌZ - Vocês não vão conseguir da noite pro dia transformar essa escola
JORGE - Toda corrida começa pelo primeiro passo, e esse é o nosso primeiro passo, uma grande corrida que se inicia rumo à educação que queremos e a escola que sonhamos.
LUÌZ - É eu acho que estão sonhando alto demais. Cuidado com o tombo
REGINA - Sonhar não custa nada.
ALICE - Pois é já dizia Dom Helder Câmara: Sonho que se sonha só é apenas sonho, mas sonho que se sonha junto é a realidade que começa acontecer!
E A VIDA CONTINUA...
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
DOM CASMURRO
PEÇA DOM CASMURRO
CASA DE BENTINHO
(CAPITÚ E BENTINHO ESTÃO EM CENA, AMBOS SENTADOS ESCORADOS NAS COSTAS UM DO OUTRO)
CAPITU – Bentinho, você, mim acha bonita?
BETINHO – Ora Capitu, por que essa pergunta?
CAPITU – Então você mim acha tão feia assim?
BENTINHO – (VIRA-SE E A ENCARA) Feia? Você é a menina mais linda que eu já conheci em toda a minha vida.
CAPITU- (BEIJA-O NO ROSTO) Obrigada! Ontem eu tive um sonho lindo... E você, sonhou com quem ontem?
BENTINHO – Sonhei que tínhamos que nos separar, e que nunca mais iríamos brincar juntos.
CAPITU – Então não foi sonho, foi pesadelo e eu morreria se perdesse a sua amizade. (ABRAÇA – O E LEVANTA-SE) Eu sonhei, que nós andávamos no céu, em meios as nuvens...
BENTINHO – (LEVANTANDO-SE) E lá Capitu era bonito?
CAPITU – Muito, muito lindo, nós conversávamos (PEGA NA MÃO DELE) eu pegava na sua mão, ela estava quente. Ai começava a música, ai nós dançávamos, dançávamos... (ELES DANÇAM, JOSÉ DIAS ENTRA SEM QUE ELES VEJAM E OBSERVA)
VOZ DONA FORTUNATA – Capitu, menina venha já pra casa!
CAPITU – Tenho que ir.
BENTINHO – Vamos, eu vou lhe deixar!
CAPITU – Quem chegar por ultimo é a mulher do padre.
BENTINHO – Então vai, no já: 1, 2, 3 já. (SAEM CORRENDO)
JOSÉ DIAS – Essas crianças!
DONA GLÓRIA – (ENTRANDO) José Dias você viu o Bentinho?
JOSÉ DIAS – Bentinho foi deixar a Capitu em casa. Dona Glória, se a senhora que mesmo meter Bentinho no seminário, deve se apressar antes que seja tarde.
DONA GLÓRIA – Tarde?
JOSÉ DIAS – Não me parece bonito (BENTINHO OS OBSERVA) que o Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Pádua.
DONA GLÓRIA – Metido nos cantos?
JOSÉ DIAS – É um modo de falar, em segredinhos, sempre juntos, Bentinho quase que não sai de lá... Se eles pegam de namoro...
DONA GLÓRIA – Mais senhor José Dias tenho visto os pequenos brincando e nunca desconfiei de nada. Bentinho mal tenho 15 anos, Capitu fez 14 semana passada, sem falar que foram criados juntos.
JOSÉ DIAS – Mais creio que só falei de muito observar. Você já reparou nos olhos da menina? Aqueles olhos de cigana, obliqua e dissimulada.
DONA GLÓRIA – Em todo o caso já é tempo. Vou trata-lo de mete-lo no seminário o quanto antes. Afinal de contas é promessa, tendo nascido morto meu primeiro filho, peguei-me com Deus para que o segundo vinga-se, prometendo-lhe se fosse homem dar-lhe-ia um padre.
JOSÉ DIAS – Então já é tempo de cumprir a promessa. (SAEM).
BENTINHO – (ENTRANDO PASMO) Sempre juntinhos... em segredinhos... se eles pegam de namoro... eu e Capitu, Capitu e eu? Tenho que falar com ela. (SAI).
CASA DE CAPITU
(CAPITU ENTRA E ESCREVE NO MURO: BENTINHO E CAPITOLINA)
BENTINHO – (ENTRA CALADO E OBSERVA O QUE ESTÁ ESCRITO NO MURO)
CAPITU – (VIRA-SE ASSUSTADA) O que você tem Bentinho?
BENTINHO – Eu? Nada... é uma noticia.
CAPITU – Noticia, noticia de que? (APROXIMA-SE, BENTINHO OLHA PARA O MURO E LÊ O QUE ELA ESCREVEU. ELES SE OLHAM E DÃO-SE AS MÃOS).
DONA FORTUNATA – (ENTRANDO) Vocês estão jogando o siso?
CAPITU – É, mais Bentinho ri logo não agüenta.
DONA FORTUNATA – É mais agora está sério.
CAPITU – Só porque mamãe está olhando.
DONA FORTUNATA – (LIMPA O QUE ESTÁ ESCRITO) Olha Capitu não fique sujando o muro. (SAI)
(BENTINHO E CAPITU SOLTAM-SE AS MÃOS E DÃO-SE AS COSTAS)
CAPITU – Então que noticia tem para me dar?
BENTINHO – Minha mãe resolveu cumprir a promessa e me mandar pra o seminário.
CAPITU – (INDIGNADA) O que? Beata! Carola! Papa missa!
BENTINHO – Não fale assim! Olhe, mais eu juro que pela hora da morte eu não vou.
CAPITU – Você! Você vai.
BENTINHO – Não, não vou.
CAPITU – Se eu fosse rica você fugiria, metia-se em um navio e ia para Europa... Tem que ter uma saída.
BENTINHO – Mais qual?
CAPITU – Já sei! José Dias ele pode convencer sua mãe.
BENTINHO - Mais se foi ele mesmo que falou
CAPITU – Não importa.
BENTINHO – Eu acho que não vai dar certo.
CAPITU – Então vá pro seminário.
BENTINHO - Não isso não.
CAPITU – Então o que custa tentar?
BENTINHO – Então tá, eu vou falar com ele. (SAI)
CAPITU – Boa sorte!
BENTINHO – (SAINDO) Se o José Dias conseguir, eu rezo mil padre nossos e mil ave Marias.
CASA DE BENTINHO
JOSÉ DIAS – (ENTRA E SENTA-SE)
BENTINHO – José Dias, eu, eu queria pedir-lhe um favor.
JOSÉ DIAS – Um favor, mande, ordene o que é?
BENTINHO – Mamãe que eu seja padre, mais eu não posso ser padre.
JOSÉ DIAS – Mais o que posso fazer?
BENTINHO – Pode muito, olhe fala pra mamãe se ela quiser que eu estude lei vou pra São Paulo.
JOSÉ DIAS – Tudo bem, eu falo com sua mãe. Mais então porque não estuda lei fora? Poderemos ir juntos viajaremos pelas terras estrangeiras ouviremos inglês, francês, italiano, espanhol, russo e ate sueco. Dona Glória não poderá acompanha-lo. Mais eu posso ir com você.
BENTINHO – Então está dito, peço à mamãe que não me coloque no seminário e vamos juntos á Europa.
JOSÉ DIAS – Pedi eu peço, mas pedi não é alcançar, mas deixe comigo. Oh Europa! Estamos abordo. Estamos abordo Bentinho.
BENTINHO – Obrigado José Dias!
JOSÉ DIAS – Oh Europa!
DONA GLÓRIA – (ENTRANDO) Falando só José Dias!
JOSÉ DIAS – Dona Glória eu estive pensando, será mesmo que Bentinho tem vocação pra ser padre?
DONA GLÓRIA – Creio que sim! Pois ele vai sempre a igreja, não pede uma missa, reza o terço...
JOSÉ DIAS – Não contesto, mais o que eu digo é que pode-se muito bem servir a Deus sem ser padre cá fora; pode-se ou não pode-se.
DONA GLÓRIA – Pode-se!
JOSÉ DIAS - Pois então, sem vocação é que não há bom padre
DONA GLÓRIA – Tudo é Deus e Deus permite. Senhor jose dias bentinho há de ser um bom padre. (SAI)
JOSE DIAS – Será uma difícil missão! (SAI)
CASA DE CAPITU
CAPITU ESTÁ SENTANDA PENTEANDO-SE
CAPITU – Será que José Dias intercedeu por Bentinho?
BENTINHO – (ENTRANDO) Bom dia Capitu! Como passou a noite?
CAPITU – Eu bem. José Dias ainda não falou?
BENTINHO – Parece que não.
CAPITU – É um inferno isto !você jura que ele falará?(levanta-se)
BENTINHO - Juro! Capitu ,sabia que eu seria capaz d fazer-lhe um penteado.
CAPITU - Você?
BENTINHO - Eu mesmo.
CAPITU - Vai estragar todo o meu cabelo isso sim.
BENTINHO - Se embaraçar,você desembaraça depois.
CAPITU - Vamos vêr1
BENTINHO - Senta aqui que é melhor. (senta-se no banco).
CAPITU - Vê lá em bentinho!(ele faz um penteado engraçado).
BENTINHO - Pronto,veja no espelho!
CAPITU - (olha-se no espelho) ah!eu estou horrível!
BENTINHO – Não exagere Capitu!
CAPITU – Vou mostrar pra todo mundo eles vão rir de você! (VAI SAINDO)
BENTINHO – Espere Capitu! (PUXA PELA MÃO ELE VOLTA DE ENCONTRO DE MANEIRA QUE FIQUEM FACE A FACE, ELES SE OLHAM E SEBEIJAM).
VOZ DA MÃE DE CAPITU – Capitu, venha já mim ajudar menina (eles se afastam)
CAPITU – Mamãe, olhe como este senhor cabeleireiro me penteou , pedir para acabar p penteado e fez isto.
DONA FORTUNATA – Para quem nunca penteou , não está mau.
CAPITU – O que mamãe? Isto? Ora mamãe.
D.FORTUNATA – Deixa de conversa e vem mim ajudar, mais tarde vocês brincam bentinho. (SAEM).
BENTINHO – Eu sou homem ! Eu sou homem. (SAI). CASA DE BENTINHO.
JOSÉ DIAS – (ENTRA)
BENTINHO – José dias já falou com mamãe.
JOSÉ DIAS – Já sim bentinho, porém não tenho boas noticias.
BETINHO – Então diga de um vez!
JOSÉ DIAS – Não consegui êxito, sua mãe está irredutível. Mas continuarei tentando. A Europa que nos esperem.O Europa,estamos abordo bentinho.(SAI)
D. GLORIA – (ENTRANDO) Tudo bem filho?
BETINHO – Mãe eu queria dizer-lhe um coisa... Quando eu vou para o seminário?
D.GLORIA – Agora só para o ano, depois das férias.
BETINHO – Mamãe se senhora pedisse a Deus que despencasse da promessa?
D.GLORIA – Não peço. Está tonto bentinho. Como havia de saber que Deus mim despencaria?
BENTINHO – Talvez em sonho, eu sonho as vez com os anjos e santos.
D. GLORIA – Promessa dada não se volta atrás. Bentinho serás um lindo padre!(SAI).
MESES DEPOIS...
CASA DE CAPITU
BENTINHO – Capitu todas as tentativas foram em vão parto amanha cedo para o seminário.(SE ABROÇAM)
CAPITU – Se você tivesse de escolhe entre mim e sua mãe quem e que escolheria?
BENTINHO – Eu? Mais para que escolher? Mamãe não era capaz de mim perguntar isso.
CAPITU – Pois sim, eu pergunto. Suponha que você receba um noticia que eu esteja morrendo você deixaria o seminário, deixaria todo para mim ver morre?
BENTINHO – Não fale em morre capitu! (SE ABRAÇAM)
BENTINHO – Você jará um coisa? Que só há de casa comigo?
CVAPITU - Ainda que você case com outra cumprirei meu juramento não casando nunca.
BENTINHO – Case com outra?
CAPITU – Quem sou eu para você lembra- se de mim nessa ocasião?
BENTINHO – Mais eu também juro! Juro por Deus nosso senhor só com você! Basta isso?(SE BEIJAM )
CAPITU – Eu ti amo bentinho!
BENTINHO – Eu também ti amo capitu, vou para o seminário como se um outro colégio qualquer.
CAPITU - Vá vamos enganar toda essa gente.
BENTINHO – Isso mesmo, assim será. A distancia não nos separará adeus capitu .
CAPITU – Adeus bentinho (SE ABRAÇAM).
(BREU)
DOIS ANOS... SEMINARIO
(BENTINHO ESTÁ A JOELHADO REZANDO)
(VESTIDO COM UMA BECA SE BEZE E LEVANTA-SE)
ESCOBAR – (ENTRA TAMBÉM VESTIDO COM A BECA)
BENTINHO – Que saudade eu sinto da minha doce Capitu... Será que ela está sofrendo assim como eu? Ou será que está pouco se importando com a minha ausência ausência rindo pelas minhas costas? Será que algum peralta da rua está galateando-a? se algum daqueles engraçadinhos se meter a besta... eu mato, eu mato os dois!
ESCOBAR – Oi Bentinho! Que cara essa? Meu amigo, o que está lhe afligindo?
BENTINHO – Tenho motivos...
ESCOBAR – O que é?
BENTINHO – Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também... você é capaz de guardar um segredo?
ESCOBAR – Isso lá é pergunta, Bentinho? Claro que sim.
BENTINHO – Escobar eu não posso ser padre.
ESCOBAR – Nem eu meu caro Bentinho.
BENTINHO – Nem você?
ESCOBAR – Segredo por segredo, meu negocio é o comercio, não nasci para as batinas. Eu ate sou religioso, mas o comercio é a minha paixão.
BENTINHO – Só isso?
ESCOBAR – Que mais há de ser?
DOIS ANOS
BENTINHO – Uma pessoa?... meu coração não pertence a Deus, ele já foi conquistado pela criatura mais bela de todo esse mundo. A Capitu
ESCOBAR – É meu amigo seu caso é realmente sério, mais como você pretende convencer sua mãe a deixá-lo sair daqui?
BENTINHO – Na ultima vez que José Dias me escreveu, sua idéia era irmos ate a Roma pedirmos absolvição do papa.
ESCOBAR – É... já sei! É simples Bentinho! Sua mãe fez promessa a Deus de lhe da-lhe um sacerdote, não é? Pois bem dei um sacerdote que não seja você. Ela pode tomar a se algum moçinho órfão, faze-lo ordenar a suas custas, estará dando um padre sem que seja você...
BENTINHO – Sim, é isso!
ESCOBAR – Saímos juntos! Você para os braços de sua Capitu, e eu para o mundo do comercio. (SAEM)
BREU
SETE ANOS
DONA GLÓRIA – É José Dias, Você tem razão, o Bentinho nunca séria um bom padre. Hoje é um bom pai de família, e faz tudo pela mulher e seu filho.
JOSÉ DIAS – É Dona Glória, sete anos atrás é já previa o amor de Bentinho e Capitu.
DONA GLÓRIA – Eles nasceram um pra o outro.
JOSÉ DIAS – A profissão não podia ser melhor, bacharel em direito!
BREU
ENTRA CAPITU, BENTINHO, ESCOBAR, EZEQUIEL.
BENTINHO – Essa sim é uma vida feliz ao lado da minha mulher, do meu querido filho, do meu melhor amigo...
CAPITU – E a Sancha Escobar, como vai? Espero que a esteja tratando bem, afinal ela foi e é a melhor amiga.
ESCOBAR – Ah Capitu, a Sanchinha está ótima cada dia mais linda!
ESEQUIEL – Mamãe, eu quero suco!
CAPITU – Não faz muito tempo que você tomou um copão de suco.
BENTINHO – Vem filhão, o papai de te da suco. (SAEM)
CAPITU – Você ainda vai deixar o Esequiel, mal acostumado.
ESCOBAR – Eu fiquei muito feliz quando eu soube que o nome do filho de vocês teria o meu nome. É motivo de honra.
CAPITU – O que é isso você merece (SORRIR)
ESCOBAR – Eu adoro seu sorriso, sabia?
CAPITU – Para Escobar!
ESCOBAR – Quando o Bentinho mim falava de você, eu chegava a sonhar a mim perguntar se era possível existir mulher tão perfeita.
CAPITU – Perfeita eu? Para Escobar, isso não são coisas que se diga a uma mulher casada.
ESCOBAR – É que o coração muitas vezes tem razão, que a própria razão desconhece.
CAPITU – Com tantos galanteios assim se estivéssemos em um baile na certa me tiraria para dançar!
ESCOBAR – Mas para que baile se podemos dançar aqui mesmo. Apenas com o som dos anjos. (ESTENDE A MÃO PARA CAPITU, ELES DANÇAM E RIEM MUITO).
ESCOBAR – Enquanto nosso segredo, está seguro?
CAPITU – O Bentinho ainda não desconfiou de nada.
ESCOBAR – Isso sim é que segredo!
BENTINHO – (ENTRANDO) Vejo que estão se divertindo.
CAPITU – O Escobar consegue dançar ainda mais ruim do que você Bentinho.
ESCOBAR – Não exagere cunhadinha.
BENTINHO – Mais que segredo é esse que vocês me escondem?
CAPITU – A culpa de acabar o segredo é toda sua (SAEM; VOLTA COM UM SACO CHEIO DE LIBRAS)
BENTINHO – Mas que libras são essas?
CAPITU – São sobras do dinheiro que você me da mensalmente.
BENTINHO – Quem foi o corretor?
ESCOBAR – É ai que eu entro na história, eu fui um ótimo corretor! Quando contei isso a Sanchinha ela também ficou espantada.
BENTINHO – Vê se ela aprende também.
ESCOBAR – Não creio; sanchinha não é gastadeira, mas também não é poupada, o que lhe dou chega, mas só chega.
BENTINHO – Capitu é um anjo!
ESCOBAR – (INDO ATE A JANELA)
O mar está de desafiar a gente.
BENTINHO – Você entra no mar amanhã?
ESCOBAR – Tenho entrado em mares muito maiores, você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter esses pulmões, agora tenho que ir. Adeus! (SAI)
CAPITU – (PARA ESEQUIEL) E você o que está fazendo?
ESEQUIEL – Mamãe quer brincar comigo?
CAPITU – Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? Só vi duas pessoas assim, um amigo de papai e o Escobar, olha Esequiel; olhe, fique assim, olhe para o lado, não precisa virar tanto os olhos assim.
BENTINHO – É você tem razão, mais ele ainda é muito criança ainda, e a beleza saiu a você.
ESEQUIEL – Vamos dormir mamãe.
CAPITU – Vamos querido. (SAEM)
BREU
BENTINHO – (ENTRA GRITANDO) Capitu! Cadê você Capitu?
CAPITU – Bentinho, o que aconteceu?
BENTINHO – Eu fui na praia se encontrar com Escobar, e você não sabe que aconteceu...
CAPITU – Fala de uma vez Bentinho, você está me deixando aflita.
BENTINHO – Escobar Capitu, ele morreu afogado.
CAPITU – Não! Não! Não! (SE ABRAÇAM-SE)
BENTINHO – Agora temos que ir, a Sancha está desesperada, ela precisa de ajuda. (SAEM)
BREU
DIAS DEPOIS
BENTINHO – (OLHANDO PARA A FOTO DE ESCOBAR) Meu amigo, meu amigo Escobar... porque naquele dia durante o velório, Capitu parecia querer vencer a se mesma! E quando ela olhou daquela forma para o cadáver tão fixa tão apaixonadamente fixa, com algumas lagrimas poucas e caladas, os seus olhos de ressaca transmitiam tanta dor... (ESEQUIEL ENTRA PRA DEIXAR O CAFÉ)
CAPITU ENTRA COM ESEQUIEL NOS BRAÇOS
CAPITU – Bom dia Bentinho (VAI ABRAÇA-LO MAIS ELE RECUSA)
CAPITU – Desde a morte de Escobar você anda tão estranho...
BENTINHO – Impressão sua Capitu.
BENTINHO – Impressionante com o Esequiel parece com o finado Escobar. Será mesmo que eles seriam capazes? Não agüento mais essa duvida, será que Capitu e Escobar eram amantes? Será que Esequiel era filho dele? Será mesmo, será mesmo que fui tão idiota?
(RETIRA UM FRASCO DO BOLSO)
Bentinho, chega! Vou por todo esse veneno no café e acabar com esse tormento, (ESEQUIEL ENTRANDO COM O CAFÉ)
ESEQUIEL – Papai, papai.
BENTINHO – Você já tomou café?
ESEQUIEL – Já papai, vou a missa com a mamãe.
BENTINHO – Toma outra xícara, meia xícara só.
ESEQUIEL – E papai.
BENTINHO – Eu mando vir mais anda bebe.
ESEQUIEL – (ENTORNA A XICARA PRECIPITANDO-SE A BEBER)
BENTINHO – (DERREPENTE TOMA A XICARA DE ESEQUIEL) Não, não faça isso.
ESCOBAR – Papai, papai,.
BENTINHO – Não, não eu não sou tu pai.
CAPITU – (ENTRA PAUSA) Você pode me explicar o que está acontecendo aqui? (RETIRA ESEQUIEL DA SALA).
BENTINHO – Não há o que explicar, não ouviu o que eu lhe disse?
CAPITU – O quê?
BENTINHO – Que ele não é meu filho.
CAPITU – Só se pode explicar tal injuria, pela convicção sincera; entretanto, você que era tão cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra de desconfiança. O que é lhe deu tal idéia? Diga, diga tudo, depois do que eu vou o resto não pode muito. O que é que lhe deu tal convicção? Ande Bentinho fale, fale. Despeça-me daqui, mas diga tudo primeiro.
BENTINHO – Há coisas que não se dizem.
CAPITU – Que não se dizem metade, mais já que disse metade diga-me tudo.
BENTINHO – Não insista Capitu.
CAPITU – Não Bentinho, ou conta o resto para que me defenda ou peço desde já a separação.
BENTINHO – A separação já é coisa decidida. Não posso conviver com uma mulher que me traiu com aquele que se dizia o meu melhor amigo.
CAPITU – (RIR) O que? Bentinho eu sempre amei você. (ABRAÇANDO-LHE)
BENTINHO – (ESQUIVA-SE E DÁ UM TAPA NA CARA) Mentira! Não toque em mim.
CAPITU – Pois ate os defuntos! Nem os mortos escapam aos teus seus ciúmes? Sei a razão de tudo isso... é a casualidade da semelhança, Deus explicará tudo. (BENTINHO RIR-SE) Rir-se? É natural apesar do seminário não acredita em Deus; eu creio... mas não falemos nisto. Não nos fica bem dizer mais nada (SAI).
BREU
ANOS DEPOIS
BENTINHO – (ESTÁ SENTADO, ESCREVENDO SEU LIVRO).
BENTINHO – Aqui está o que fizemos fomos para Europa não passear e nem ver nada novo nem velho, paramos na suíça uma professora do rio grande que foi conosco ficou de companhia para Capitu, ensinado a língua materna a Esequiel que aprenderia o resto nas escolas do país. assim regulada a vida retornei ao Brasil... Capitu morreu anos mais tarde de modo natural e Esequiel morreu de febre tifóide. Moro longe e saio pouco, convivo dia e noite com a solidão. E bom, qualquer seja a solução, uma coisa fica, e a suma das sumas, ou o resto dos restos. A saber que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremoss ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem se juntando e ME ENGANANDO.
CASA DE BENTINHO
(CAPITÚ E BENTINHO ESTÃO EM CENA, AMBOS SENTADOS ESCORADOS NAS COSTAS UM DO OUTRO)
CAPITU – Bentinho, você, mim acha bonita?
BETINHO – Ora Capitu, por que essa pergunta?
CAPITU – Então você mim acha tão feia assim?
BENTINHO – (VIRA-SE E A ENCARA) Feia? Você é a menina mais linda que eu já conheci em toda a minha vida.
CAPITU- (BEIJA-O NO ROSTO) Obrigada! Ontem eu tive um sonho lindo... E você, sonhou com quem ontem?
BENTINHO – Sonhei que tínhamos que nos separar, e que nunca mais iríamos brincar juntos.
CAPITU – Então não foi sonho, foi pesadelo e eu morreria se perdesse a sua amizade. (ABRAÇA – O E LEVANTA-SE) Eu sonhei, que nós andávamos no céu, em meios as nuvens...
BENTINHO – (LEVANTANDO-SE) E lá Capitu era bonito?
CAPITU – Muito, muito lindo, nós conversávamos (PEGA NA MÃO DELE) eu pegava na sua mão, ela estava quente. Ai começava a música, ai nós dançávamos, dançávamos... (ELES DANÇAM, JOSÉ DIAS ENTRA SEM QUE ELES VEJAM E OBSERVA)
VOZ DONA FORTUNATA – Capitu, menina venha já pra casa!
CAPITU – Tenho que ir.
BENTINHO – Vamos, eu vou lhe deixar!
CAPITU – Quem chegar por ultimo é a mulher do padre.
BENTINHO – Então vai, no já: 1, 2, 3 já. (SAEM CORRENDO)
JOSÉ DIAS – Essas crianças!
DONA GLÓRIA – (ENTRANDO) José Dias você viu o Bentinho?
JOSÉ DIAS – Bentinho foi deixar a Capitu em casa. Dona Glória, se a senhora que mesmo meter Bentinho no seminário, deve se apressar antes que seja tarde.
DONA GLÓRIA – Tarde?
JOSÉ DIAS – Não me parece bonito (BENTINHO OS OBSERVA) que o Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Pádua.
DONA GLÓRIA – Metido nos cantos?
JOSÉ DIAS – É um modo de falar, em segredinhos, sempre juntos, Bentinho quase que não sai de lá... Se eles pegam de namoro...
DONA GLÓRIA – Mais senhor José Dias tenho visto os pequenos brincando e nunca desconfiei de nada. Bentinho mal tenho 15 anos, Capitu fez 14 semana passada, sem falar que foram criados juntos.
JOSÉ DIAS – Mais creio que só falei de muito observar. Você já reparou nos olhos da menina? Aqueles olhos de cigana, obliqua e dissimulada.
DONA GLÓRIA – Em todo o caso já é tempo. Vou trata-lo de mete-lo no seminário o quanto antes. Afinal de contas é promessa, tendo nascido morto meu primeiro filho, peguei-me com Deus para que o segundo vinga-se, prometendo-lhe se fosse homem dar-lhe-ia um padre.
JOSÉ DIAS – Então já é tempo de cumprir a promessa. (SAEM).
BENTINHO – (ENTRANDO PASMO) Sempre juntinhos... em segredinhos... se eles pegam de namoro... eu e Capitu, Capitu e eu? Tenho que falar com ela. (SAI).
CASA DE CAPITU
(CAPITU ENTRA E ESCREVE NO MURO: BENTINHO E CAPITOLINA)
BENTINHO – (ENTRA CALADO E OBSERVA O QUE ESTÁ ESCRITO NO MURO)
CAPITU – (VIRA-SE ASSUSTADA) O que você tem Bentinho?
BENTINHO – Eu? Nada... é uma noticia.
CAPITU – Noticia, noticia de que? (APROXIMA-SE, BENTINHO OLHA PARA O MURO E LÊ O QUE ELA ESCREVEU. ELES SE OLHAM E DÃO-SE AS MÃOS).
DONA FORTUNATA – (ENTRANDO) Vocês estão jogando o siso?
CAPITU – É, mais Bentinho ri logo não agüenta.
DONA FORTUNATA – É mais agora está sério.
CAPITU – Só porque mamãe está olhando.
DONA FORTUNATA – (LIMPA O QUE ESTÁ ESCRITO) Olha Capitu não fique sujando o muro. (SAI)
(BENTINHO E CAPITU SOLTAM-SE AS MÃOS E DÃO-SE AS COSTAS)
CAPITU – Então que noticia tem para me dar?
BENTINHO – Minha mãe resolveu cumprir a promessa e me mandar pra o seminário.
CAPITU – (INDIGNADA) O que? Beata! Carola! Papa missa!
BENTINHO – Não fale assim! Olhe, mais eu juro que pela hora da morte eu não vou.
CAPITU – Você! Você vai.
BENTINHO – Não, não vou.
CAPITU – Se eu fosse rica você fugiria, metia-se em um navio e ia para Europa... Tem que ter uma saída.
BENTINHO – Mais qual?
CAPITU – Já sei! José Dias ele pode convencer sua mãe.
BENTINHO - Mais se foi ele mesmo que falou
CAPITU – Não importa.
BENTINHO – Eu acho que não vai dar certo.
CAPITU – Então vá pro seminário.
BENTINHO - Não isso não.
CAPITU – Então o que custa tentar?
BENTINHO – Então tá, eu vou falar com ele. (SAI)
CAPITU – Boa sorte!
BENTINHO – (SAINDO) Se o José Dias conseguir, eu rezo mil padre nossos e mil ave Marias.
CASA DE BENTINHO
JOSÉ DIAS – (ENTRA E SENTA-SE)
BENTINHO – José Dias, eu, eu queria pedir-lhe um favor.
JOSÉ DIAS – Um favor, mande, ordene o que é?
BENTINHO – Mamãe que eu seja padre, mais eu não posso ser padre.
JOSÉ DIAS – Mais o que posso fazer?
BENTINHO – Pode muito, olhe fala pra mamãe se ela quiser que eu estude lei vou pra São Paulo.
JOSÉ DIAS – Tudo bem, eu falo com sua mãe. Mais então porque não estuda lei fora? Poderemos ir juntos viajaremos pelas terras estrangeiras ouviremos inglês, francês, italiano, espanhol, russo e ate sueco. Dona Glória não poderá acompanha-lo. Mais eu posso ir com você.
BENTINHO – Então está dito, peço à mamãe que não me coloque no seminário e vamos juntos á Europa.
JOSÉ DIAS – Pedi eu peço, mas pedi não é alcançar, mas deixe comigo. Oh Europa! Estamos abordo. Estamos abordo Bentinho.
BENTINHO – Obrigado José Dias!
JOSÉ DIAS – Oh Europa!
DONA GLÓRIA – (ENTRANDO) Falando só José Dias!
JOSÉ DIAS – Dona Glória eu estive pensando, será mesmo que Bentinho tem vocação pra ser padre?
DONA GLÓRIA – Creio que sim! Pois ele vai sempre a igreja, não pede uma missa, reza o terço...
JOSÉ DIAS – Não contesto, mais o que eu digo é que pode-se muito bem servir a Deus sem ser padre cá fora; pode-se ou não pode-se.
DONA GLÓRIA – Pode-se!
JOSÉ DIAS - Pois então, sem vocação é que não há bom padre
DONA GLÓRIA – Tudo é Deus e Deus permite. Senhor jose dias bentinho há de ser um bom padre. (SAI)
JOSE DIAS – Será uma difícil missão! (SAI)
CASA DE CAPITU
CAPITU ESTÁ SENTANDA PENTEANDO-SE
CAPITU – Será que José Dias intercedeu por Bentinho?
BENTINHO – (ENTRANDO) Bom dia Capitu! Como passou a noite?
CAPITU – Eu bem. José Dias ainda não falou?
BENTINHO – Parece que não.
CAPITU – É um inferno isto !você jura que ele falará?(levanta-se)
BENTINHO - Juro! Capitu ,sabia que eu seria capaz d fazer-lhe um penteado.
CAPITU - Você?
BENTINHO - Eu mesmo.
CAPITU - Vai estragar todo o meu cabelo isso sim.
BENTINHO - Se embaraçar,você desembaraça depois.
CAPITU - Vamos vêr1
BENTINHO - Senta aqui que é melhor. (senta-se no banco).
CAPITU - Vê lá em bentinho!(ele faz um penteado engraçado).
BENTINHO - Pronto,veja no espelho!
CAPITU - (olha-se no espelho) ah!eu estou horrível!
BENTINHO – Não exagere Capitu!
CAPITU – Vou mostrar pra todo mundo eles vão rir de você! (VAI SAINDO)
BENTINHO – Espere Capitu! (PUXA PELA MÃO ELE VOLTA DE ENCONTRO DE MANEIRA QUE FIQUEM FACE A FACE, ELES SE OLHAM E SEBEIJAM).
VOZ DA MÃE DE CAPITU – Capitu, venha já mim ajudar menina (eles se afastam)
CAPITU – Mamãe, olhe como este senhor cabeleireiro me penteou , pedir para acabar p penteado e fez isto.
DONA FORTUNATA – Para quem nunca penteou , não está mau.
CAPITU – O que mamãe? Isto? Ora mamãe.
D.FORTUNATA – Deixa de conversa e vem mim ajudar, mais tarde vocês brincam bentinho. (SAEM).
BENTINHO – Eu sou homem ! Eu sou homem. (SAI). CASA DE BENTINHO.
JOSÉ DIAS – (ENTRA)
BENTINHO – José dias já falou com mamãe.
JOSÉ DIAS – Já sim bentinho, porém não tenho boas noticias.
BETINHO – Então diga de um vez!
JOSÉ DIAS – Não consegui êxito, sua mãe está irredutível. Mas continuarei tentando. A Europa que nos esperem.O Europa,estamos abordo bentinho.(SAI)
D. GLORIA – (ENTRANDO) Tudo bem filho?
BETINHO – Mãe eu queria dizer-lhe um coisa... Quando eu vou para o seminário?
D.GLORIA – Agora só para o ano, depois das férias.
BETINHO – Mamãe se senhora pedisse a Deus que despencasse da promessa?
D.GLORIA – Não peço. Está tonto bentinho. Como havia de saber que Deus mim despencaria?
BENTINHO – Talvez em sonho, eu sonho as vez com os anjos e santos.
D. GLORIA – Promessa dada não se volta atrás. Bentinho serás um lindo padre!(SAI).
MESES DEPOIS...
CASA DE CAPITU
BENTINHO – Capitu todas as tentativas foram em vão parto amanha cedo para o seminário.(SE ABROÇAM)
CAPITU – Se você tivesse de escolhe entre mim e sua mãe quem e que escolheria?
BENTINHO – Eu? Mais para que escolher? Mamãe não era capaz de mim perguntar isso.
CAPITU – Pois sim, eu pergunto. Suponha que você receba um noticia que eu esteja morrendo você deixaria o seminário, deixaria todo para mim ver morre?
BENTINHO – Não fale em morre capitu! (SE ABRAÇAM)
BENTINHO – Você jará um coisa? Que só há de casa comigo?
CVAPITU - Ainda que você case com outra cumprirei meu juramento não casando nunca.
BENTINHO – Case com outra?
CAPITU – Quem sou eu para você lembra- se de mim nessa ocasião?
BENTINHO – Mais eu também juro! Juro por Deus nosso senhor só com você! Basta isso?(SE BEIJAM )
CAPITU – Eu ti amo bentinho!
BENTINHO – Eu também ti amo capitu, vou para o seminário como se um outro colégio qualquer.
CAPITU - Vá vamos enganar toda essa gente.
BENTINHO – Isso mesmo, assim será. A distancia não nos separará adeus capitu .
CAPITU – Adeus bentinho (SE ABRAÇAM).
(BREU)
DOIS ANOS... SEMINARIO
(BENTINHO ESTÁ A JOELHADO REZANDO)
(VESTIDO COM UMA BECA SE BEZE E LEVANTA-SE)
ESCOBAR – (ENTRA TAMBÉM VESTIDO COM A BECA)
BENTINHO – Que saudade eu sinto da minha doce Capitu... Será que ela está sofrendo assim como eu? Ou será que está pouco se importando com a minha ausência ausência rindo pelas minhas costas? Será que algum peralta da rua está galateando-a? se algum daqueles engraçadinhos se meter a besta... eu mato, eu mato os dois!
ESCOBAR – Oi Bentinho! Que cara essa? Meu amigo, o que está lhe afligindo?
BENTINHO – Tenho motivos...
ESCOBAR – O que é?
BENTINHO – Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também... você é capaz de guardar um segredo?
ESCOBAR – Isso lá é pergunta, Bentinho? Claro que sim.
BENTINHO – Escobar eu não posso ser padre.
ESCOBAR – Nem eu meu caro Bentinho.
BENTINHO – Nem você?
ESCOBAR – Segredo por segredo, meu negocio é o comercio, não nasci para as batinas. Eu ate sou religioso, mas o comercio é a minha paixão.
BENTINHO – Só isso?
ESCOBAR – Que mais há de ser?
DOIS ANOS
BENTINHO – Uma pessoa?... meu coração não pertence a Deus, ele já foi conquistado pela criatura mais bela de todo esse mundo. A Capitu
ESCOBAR – É meu amigo seu caso é realmente sério, mais como você pretende convencer sua mãe a deixá-lo sair daqui?
BENTINHO – Na ultima vez que José Dias me escreveu, sua idéia era irmos ate a Roma pedirmos absolvição do papa.
ESCOBAR – É... já sei! É simples Bentinho! Sua mãe fez promessa a Deus de lhe da-lhe um sacerdote, não é? Pois bem dei um sacerdote que não seja você. Ela pode tomar a se algum moçinho órfão, faze-lo ordenar a suas custas, estará dando um padre sem que seja você...
BENTINHO – Sim, é isso!
ESCOBAR – Saímos juntos! Você para os braços de sua Capitu, e eu para o mundo do comercio. (SAEM)
BREU
SETE ANOS
DONA GLÓRIA – É José Dias, Você tem razão, o Bentinho nunca séria um bom padre. Hoje é um bom pai de família, e faz tudo pela mulher e seu filho.
JOSÉ DIAS – É Dona Glória, sete anos atrás é já previa o amor de Bentinho e Capitu.
DONA GLÓRIA – Eles nasceram um pra o outro.
JOSÉ DIAS – A profissão não podia ser melhor, bacharel em direito!
BREU
ENTRA CAPITU, BENTINHO, ESCOBAR, EZEQUIEL.
BENTINHO – Essa sim é uma vida feliz ao lado da minha mulher, do meu querido filho, do meu melhor amigo...
CAPITU – E a Sancha Escobar, como vai? Espero que a esteja tratando bem, afinal ela foi e é a melhor amiga.
ESCOBAR – Ah Capitu, a Sanchinha está ótima cada dia mais linda!
ESEQUIEL – Mamãe, eu quero suco!
CAPITU – Não faz muito tempo que você tomou um copão de suco.
BENTINHO – Vem filhão, o papai de te da suco. (SAEM)
CAPITU – Você ainda vai deixar o Esequiel, mal acostumado.
ESCOBAR – Eu fiquei muito feliz quando eu soube que o nome do filho de vocês teria o meu nome. É motivo de honra.
CAPITU – O que é isso você merece (SORRIR)
ESCOBAR – Eu adoro seu sorriso, sabia?
CAPITU – Para Escobar!
ESCOBAR – Quando o Bentinho mim falava de você, eu chegava a sonhar a mim perguntar se era possível existir mulher tão perfeita.
CAPITU – Perfeita eu? Para Escobar, isso não são coisas que se diga a uma mulher casada.
ESCOBAR – É que o coração muitas vezes tem razão, que a própria razão desconhece.
CAPITU – Com tantos galanteios assim se estivéssemos em um baile na certa me tiraria para dançar!
ESCOBAR – Mas para que baile se podemos dançar aqui mesmo. Apenas com o som dos anjos. (ESTENDE A MÃO PARA CAPITU, ELES DANÇAM E RIEM MUITO).
ESCOBAR – Enquanto nosso segredo, está seguro?
CAPITU – O Bentinho ainda não desconfiou de nada.
ESCOBAR – Isso sim é que segredo!
BENTINHO – (ENTRANDO) Vejo que estão se divertindo.
CAPITU – O Escobar consegue dançar ainda mais ruim do que você Bentinho.
ESCOBAR – Não exagere cunhadinha.
BENTINHO – Mais que segredo é esse que vocês me escondem?
CAPITU – A culpa de acabar o segredo é toda sua (SAEM; VOLTA COM UM SACO CHEIO DE LIBRAS)
BENTINHO – Mas que libras são essas?
CAPITU – São sobras do dinheiro que você me da mensalmente.
BENTINHO – Quem foi o corretor?
ESCOBAR – É ai que eu entro na história, eu fui um ótimo corretor! Quando contei isso a Sanchinha ela também ficou espantada.
BENTINHO – Vê se ela aprende também.
ESCOBAR – Não creio; sanchinha não é gastadeira, mas também não é poupada, o que lhe dou chega, mas só chega.
BENTINHO – Capitu é um anjo!
ESCOBAR – (INDO ATE A JANELA)
O mar está de desafiar a gente.
BENTINHO – Você entra no mar amanhã?
ESCOBAR – Tenho entrado em mares muito maiores, você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter esses pulmões, agora tenho que ir. Adeus! (SAI)
CAPITU – (PARA ESEQUIEL) E você o que está fazendo?
ESEQUIEL – Mamãe quer brincar comigo?
CAPITU – Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? Só vi duas pessoas assim, um amigo de papai e o Escobar, olha Esequiel; olhe, fique assim, olhe para o lado, não precisa virar tanto os olhos assim.
BENTINHO – É você tem razão, mais ele ainda é muito criança ainda, e a beleza saiu a você.
ESEQUIEL – Vamos dormir mamãe.
CAPITU – Vamos querido. (SAEM)
BREU
BENTINHO – (ENTRA GRITANDO) Capitu! Cadê você Capitu?
CAPITU – Bentinho, o que aconteceu?
BENTINHO – Eu fui na praia se encontrar com Escobar, e você não sabe que aconteceu...
CAPITU – Fala de uma vez Bentinho, você está me deixando aflita.
BENTINHO – Escobar Capitu, ele morreu afogado.
CAPITU – Não! Não! Não! (SE ABRAÇAM-SE)
BENTINHO – Agora temos que ir, a Sancha está desesperada, ela precisa de ajuda. (SAEM)
BREU
DIAS DEPOIS
BENTINHO – (OLHANDO PARA A FOTO DE ESCOBAR) Meu amigo, meu amigo Escobar... porque naquele dia durante o velório, Capitu parecia querer vencer a se mesma! E quando ela olhou daquela forma para o cadáver tão fixa tão apaixonadamente fixa, com algumas lagrimas poucas e caladas, os seus olhos de ressaca transmitiam tanta dor... (ESEQUIEL ENTRA PRA DEIXAR O CAFÉ)
CAPITU ENTRA COM ESEQUIEL NOS BRAÇOS
CAPITU – Bom dia Bentinho (VAI ABRAÇA-LO MAIS ELE RECUSA)
CAPITU – Desde a morte de Escobar você anda tão estranho...
BENTINHO – Impressão sua Capitu.
BENTINHO – Impressionante com o Esequiel parece com o finado Escobar. Será mesmo que eles seriam capazes? Não agüento mais essa duvida, será que Capitu e Escobar eram amantes? Será que Esequiel era filho dele? Será mesmo, será mesmo que fui tão idiota?
(RETIRA UM FRASCO DO BOLSO)
Bentinho, chega! Vou por todo esse veneno no café e acabar com esse tormento, (ESEQUIEL ENTRANDO COM O CAFÉ)
ESEQUIEL – Papai, papai.
BENTINHO – Você já tomou café?
ESEQUIEL – Já papai, vou a missa com a mamãe.
BENTINHO – Toma outra xícara, meia xícara só.
ESEQUIEL – E papai.
BENTINHO – Eu mando vir mais anda bebe.
ESEQUIEL – (ENTORNA A XICARA PRECIPITANDO-SE A BEBER)
BENTINHO – (DERREPENTE TOMA A XICARA DE ESEQUIEL) Não, não faça isso.
ESCOBAR – Papai, papai,.
BENTINHO – Não, não eu não sou tu pai.
CAPITU – (ENTRA PAUSA) Você pode me explicar o que está acontecendo aqui? (RETIRA ESEQUIEL DA SALA).
BENTINHO – Não há o que explicar, não ouviu o que eu lhe disse?
CAPITU – O quê?
BENTINHO – Que ele não é meu filho.
CAPITU – Só se pode explicar tal injuria, pela convicção sincera; entretanto, você que era tão cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra de desconfiança. O que é lhe deu tal idéia? Diga, diga tudo, depois do que eu vou o resto não pode muito. O que é que lhe deu tal convicção? Ande Bentinho fale, fale. Despeça-me daqui, mas diga tudo primeiro.
BENTINHO – Há coisas que não se dizem.
CAPITU – Que não se dizem metade, mais já que disse metade diga-me tudo.
BENTINHO – Não insista Capitu.
CAPITU – Não Bentinho, ou conta o resto para que me defenda ou peço desde já a separação.
BENTINHO – A separação já é coisa decidida. Não posso conviver com uma mulher que me traiu com aquele que se dizia o meu melhor amigo.
CAPITU – (RIR) O que? Bentinho eu sempre amei você. (ABRAÇANDO-LHE)
BENTINHO – (ESQUIVA-SE E DÁ UM TAPA NA CARA) Mentira! Não toque em mim.
CAPITU – Pois ate os defuntos! Nem os mortos escapam aos teus seus ciúmes? Sei a razão de tudo isso... é a casualidade da semelhança, Deus explicará tudo. (BENTINHO RIR-SE) Rir-se? É natural apesar do seminário não acredita em Deus; eu creio... mas não falemos nisto. Não nos fica bem dizer mais nada (SAI).
BREU
ANOS DEPOIS
BENTINHO – (ESTÁ SENTADO, ESCREVENDO SEU LIVRO).
BENTINHO – Aqui está o que fizemos fomos para Europa não passear e nem ver nada novo nem velho, paramos na suíça uma professora do rio grande que foi conosco ficou de companhia para Capitu, ensinado a língua materna a Esequiel que aprenderia o resto nas escolas do país. assim regulada a vida retornei ao Brasil... Capitu morreu anos mais tarde de modo natural e Esequiel morreu de febre tifóide. Moro longe e saio pouco, convivo dia e noite com a solidão. E bom, qualquer seja a solução, uma coisa fica, e a suma das sumas, ou o resto dos restos. A saber que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremoss ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem se juntando e ME ENGANANDO.
frase do dia
"Nós sempre temos tendência de ver coisas que não existem, e ficar cegos para as grandes lições que estão diante de nossos olhos."
Paulo Coelho
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